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Ter um filho hoje: quando a esperança vence o medo

Aceitar que alguém nasça — sem garantias, sem cálculos perfeitos — pode ser um ato de esperança. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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Minha filha,

Talvez você ainda seja muito jovem para entender tudo isso. Talvez, agora, tudo o que você queira seja correr, rir, fazer perguntas impossíveis e me pedir uma história para dormir. Mas, um dia, você lerá estas linhas. E eu gostaria que você soubesse por que, para mim, o seu nascimento — e o de qualquer criança — é tão importante.

Já pensei muito sobre isso. No fim, as sociedades se revelam: você consegue saber quem elas são pela forma como tratam aqueles que estão apenas começando a existir. Aqueles que não podem falar, se defender ou provar que “são úteis” para alguma coisa. E também pela forma como falam deles.

Vivemos numa era em que tudo é medido. Avaliamos, calculamos e planejamos. E, quase sem perceber, começamos a encarar o nascimento da mesma forma: como algo que precisa ser cuidadosamente orquestrado, autorizado ou evitado, se não se encaixar. Celebramos aniversários, sim. Mas nem sempre ficamos felizes quando nascem muitos filhos. Gostamos de histórias de começos… desde que não compliquem demais as coisas.

Há um pensador francês, Fabrice Hadjadj, que diz algo que me toca profundamente: nascer não é apenas um fato biológico. É chegar ao mundo sem ter feito nada para merecer. Sem currículo, sem mérito, sem qualificações. Simplesmente existir. E isso é perturbador.

Porque, aí, a questão deixa de ser técnica ou médica e se torna algo muito mais incômodo: é bom que alguém exista simplesmente por existir? Ou o seu direito à vida depende de certas condições?

Durante séculos, a vida era recebida. Era algo dado. Depois vinha o esforço para corresponder às expectativas. Hoje, parece que a lógica se inverteu: primeiro avaliamos e só depois deixamos ir. A tecnologia — que trouxe muitas coisas boas — também começou a filtrar. A decidir quais vidas parecem viáveis e quais não. E faz isso silenciosamente. Não por ódio, mas por eficiência. Não por crueldade, mas por gestão. É por isso que é tão perturbador.

Hadjadj diz algo provocativo:
“Já que o aborto é um direito, toda mulher que concorda em gerar uma vida em seu ventre é uma Joana d’Arc.”

Pode parecer exagerado. Mas aponta para algo real: num contexto em que impedir o nascimento é uma opção viável, permitir que alguém nasça começa a parecer uma decisão que deve ser respeitada. Às vezes, contra a corrente. Às vezes, em silêncio.

Não porque ter um filho seja heroico em si, mas porque implica afirmar algo muito simples: que a vida não precisa ser justificada para começar. A técnica não é o problema. O problema surge quando ela deixa de servir à vida e passa a avaliá-la. Quando deixa de se importar e começa a decidir quem merece estar ali.

Há uma palavra que raramente usamos: esperança. Não se trata de ingenuidade, nem de achar que tudo vai dar certo. É mais uma forma de permanecermos fiéis à nossa humanidade, mesmo quando essa humanidade é frágil, dependente ou desconfortável.

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Defender a vida dos nascituros não é olhar para o passado com nostalgia. É lembrar algo fundamental: a dignidade não é concedida por leis ou maiorias. Ela vem em primeiro lugar. A lei deveria reconhecê-la, não fabricá-la

Quando você nasceu, não sabíamos nada sobre o que você se tornaria. Nenhum talento, nenhuma conquista, nenhum plano. E não importava. Você era valiosa simplesmente por existir. É simples assim. Talvez seja por isso que, hoje, o nascimento seja mais uma vez um marco importante. Não porque garanta a felicidade, mas porque nos lembra de algo fundamental: a vida não é explicada. Ela é recebida.

E aceitar que alguém nasce — sem garantias, sem cálculos perfeitos — ainda pode ser um ato de esperança.

Com todo o meu amor,
papai.

©2026 Revista Suroeste. Publicado com permissão. Original em espanhol: Contra el miedo a que alguien nazca

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