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Trump, Irã, Ucrânia e Groenlândia: os limites entre a paz e a guerra

O presidente dos EUA, Donald Trump, gesticula após seu discurso especial na 56ª reunião anual do Fórum Econômico Mundial (FEM) em Davos, Suíça, em 21 de janeiro de 2026. (Foto: Gian Ehrenzeller/EFE/EPA)

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Os 55 anos do Fórum Econômico Mundial se desenrolam sob diversos horizontes, que deverão ser redefinidos nos próximos meses, anos e até décadas. O retorno de Donald J. Trump ao poder reorientou o curso da ordem mundial e da globalização. Em pouco mais de 365 dias de mandato, Trump assumiu para si a tutela estratégica de algumas regiões sensíveis das Américas, como o Golfo do México, o Canal do Panamá e a pressão direta para a retirada do ditador Nicolás Maduro, na Venezuela. Essas ações foram conduzidas com grande agilidade e refletem boa parte da estratégia geopolítica estadunidense.

Provavelmente, um dos últimos capítulos de caráter intervencionista em seu governo no continente americano será o aumento da presença dos Estados Unidos na Groenlândia, território semiautônomo sob jurisdição da Dinamarca. Diante do acelerado derretimento do Ártico, uma nova rota comercial tende a se abrir na região, criando um corredor estratégico para que Rússia e China escoem os seus produtos pelo mundo. Muito próximas do território norte-americano, essas duas potências militares poderiam exercer uma pressão inédita sobre os Estados Unidos.

Vislumbra-se um cenário marcado por um equilíbrio frágil entre a possibilidade de uma paz duradoura e a consolidação de conflitos regionais constantes nesta nova fase da globalização

Em diálogo constante com representantes políticos da Groenlândia, da Dinamarca e da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), o governo Trump pretende avançar sobre o território, ainda que sem uma estratégia formalmente definida. Apesar dessa indefinição, está claro que se trata de um “caminho sem volta”. A região coberta por gelo deverá integrar a logística do chamado “Domo de Ouro”, um sistema composto por satélites de vigilância e ataque capazes de interceptar mísseis inimigos. A proposta ganha força diante do desenvolvimento e da exibição de mísseis balísticos por China, Coreia do Norte e Rússia, armamentos com autonomia suficiente para alcançar o território americano.

Paralelamente a essas movimentações, Trump se aproxima de conquistar o seu maior trunfo diplomático: um acordo de paz entre Ucrânia e Rússia, conflito que se arrasta de forma intermitente desde 2014, com a invasão da Crimeia. Em Moscou, diplomatas e representantes dos Estados Unidos mantêm negociações diretas com a equipe do presidente Vladimir Putin, buscando avançar nos termos finais do acordo – especialmente aqueles relacionados aos territórios que deverão permanecer sob controle russo, anteriormente pertencentes à Ucrânia. Torna-se cada vez mais evidente que o país liderado por Volodymyr Zelensky dificilmente conseguirá retomar integralmente as suas regiões. Se a paz ainda é possível, o retorno ao status quo anterior parece cada vez mais improvável.

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Enquanto uma paz frágil respira por aparelhos na Europa Oriental, uma iminente guerra, tanto interna quanto externa, ronda o Irã. Mergulhado em uma grave crise econômica, após ver antigos aliados serem derrubados pelos Estados Unidos e por Israel no Oriente Médio, e com a sua capacidade nuclear abalada pelos ataques sofridos em 2025, o regime do aiatolá Ali Khamenei se mantém no poder principalmente por meio de uma repressão severa, exercida por forças militares leais à Revolução Islâmica, de 1979.

Ainda assim, durante uma viagem oficial, Trump anunciou o envio de um robusto aparato de vigilância e ataque para áreas próximas à nação persa. Como observado anteriormente no caso venezuelano, esse tipo de presença costuma sinalizar ações mais concretas nas semanas seguintes.

Diante das incertezas desse cenário, é possível constatar que Trump corre contra o tempo para conter a influência chinesa na geopolítica mundial. Ao mesmo tempo, busca salvaguardar as suas zonas tradicionais de influência – como a América Latina e o Oriente Médio – e promover a pacificação da Europa, de modo que, nos próximos anos, governos mais alinhados a seus interesses consigam retomar um continente mais militarizado e preparado para atuar como aliado estratégico frente ao Oriente.

A sua grande ambição, com a ampliação dos Acordos de Abraão, é limitar ainda mais as possibilidades de expansão da Nova Rota da Seda chinesa. Assim, vislumbra-se um cenário marcado por um equilíbrio frágil entre a possibilidade de uma paz duradoura e a consolidação de conflitos regionais constantes nesta nova fase da globalização.

Victor Missiato, professor de História do Colégio Presbiteriano Mackenzie Tambor, é analista político e doutor em História.

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