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O colapso venezuelano não foi acidente: a conta do socialismo bolivariano

Manifestante celebra prisão de Maduro em frente a tribunal federal de Nova York, onde ex-ditador participou de audiência nesta segunda-feira (5) (Foto: OLGA FEDOROVA/EFE/EPA)

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A detenção de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos na Venezuela, divulgada no último dia 4 de janeiro, não chama atenção apenas por seu impacto político. Ela traz de volta uma questão incômoda e frequentemente ignorada: de que forma um país com abundância de petróleo conseguiu transformar riqueza potencial em colapso econômico, miséria social e erosão institucional.

A Venezuela não entrou em colapso de forma repentina. O desastre que empurrou milhões de pessoas para fora do país foi construído ao longo de décadas, passo a passo, sob a combinação de populismo, concentração de poder e abandono progressivo das bases de uma economia de mercado.

Durante boa parte do século XX, a Venezuela figurou entre as economias mais prósperas da América Latina. Com uma moeda forte, integração ao mercado internacional e relativa segurança jurídica, o país atraía imigrantes europeus e latino-americanos em busca de oportunidades. A existência de uma classe média numerosa e padrões de consumo próximos aos de países desenvolvidos não era fruto do acaso, mas de um ambiente que permitia investimento, produção e coordenação econômica.

Esse cenário começou a mudar no fim da década de 1990, com a chegada do chavismo ao poder na Venezuela, quando o petróleo deixou de ser tratado como uma atividade produtiva sujeita a critérios econômicos e passou a ser usado como instrumento de poder político. A ascensão do socialismo bolivariano marcou uma inflexão institucional profunda. O Estado ampliou sua presença, concentrou decisões e passou a substituir gradualmente o mercado por comandos administrativos.

A estatal petrolífera PDVSA tornou-se o primeiro grande alvo. Antes operando segundo critérios técnicos, passou a ser politicamente capturada, transformando-se em uma espécie de caixa do governo. O petróleo deixou de financiar investimentos produtivos e passou a sustentar programas sociais, subsídios generalizados e a expansão acelerada do aparato estatal.

Por um tempo, o modelo pareceu funcionar. Entre os anos 2000 e 2013, a disparada dos preços internacionais do petróleo criou a ilusão de prosperidade. Com receitas abundantes, o governo elevou salários do setor público, ampliou subsídios a alimentos, energia e combustíveis, multiplicou programas assistenciais e avançou em uma onda de estatizações. O lucro passou a ser tratado como suspeito, empresários tornaram-se inimigos políticos e a propriedade privada foi progressivamente enfraquecida.

Mas essa prosperidade não tinha bases sólidas. Ela dependia quase exclusivamente da renda do petróleo e da manutenção de preços elevados no mercado internacional. Quando o ciclo das commodities se inverteu, a partir de 2013, o modelo foi colocado à prova e fracassou de forma retumbante.

A queda do preço do petróleo expôs a fragilidade de uma economia sem investimento, sem concorrência e sem capacidade produtiva autônoma. Sem recursos para sustentar o gasto público, o governo da Venezuela recorreu à expansão fiscal e monetária. O efeito desse processo foi a hiperinflação, que destruiu o poder de compra da moeda, corroeu salários, dissolveu poupanças e eliminou qualquer previsibilidade mínima para o planejamento da vida cotidiana.

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O impacto social desse processo foi devastador na Venezuela. A hiperinflação empurrou milhões de venezuelanos para a pobreza, transformou salários em valores insuficientes para a subsistência básica e espalhou a insegurança alimentar. Produtos essenciais desapareceram das prateleiras, famílias passaram a depender de racionamentos e a miséria tornou-se parte do cotidiano. O colapso econômico não apenas reduziu a renda, mas retirou da população a capacidade de planejar o próprio futuro.

O controle econômico gerou escassez. A escassez serviu de justificativa para novos controles. Vieram o controle de preços, o controle cambial, a repressão à iniciativa privada e, por fim, o autoritarismo político aberto. A economia deixou de coordenar esforços e a coerção passou a ocupar o lugar dos incentivos.

O contraste histórico é inequívoco. O país que, sob uma economia de mercado, atraía imigrantes transformou-se, sob o regime socialista bolivariano, em um exportador de refugiados econômicos. A Venezuela que oferecia oportunidades passou a oferecer escassez, oferecia uma moeda forte e passou a oferecer hiperinflação, oferecia geração de renda e passou a oferecer pobreza generalizada, oferecia autonomia econômica e passou a oferecer controle estatal. O resultado foi a deterioração rápida das condições de vida, a expansão da pobreza em escala massiva e o êxodo de milhões de pessoas.

Não existe liberdade política sem liberdade econômica. Sociedades livres dependem da capacidade dos indivíduos de escolher, produzir, trocar e planejar o futuro sem tutela permanente do Estado. Quando essa liberdade é suprimida, não desaparece apenas a eficiência econômica, desaparece também a autonomia do cidadão diante do poder político.

Ao substituir o mercado por controles estatais, o governo desorganiza a economia e concentra decisões que deveriam estar dispersas na sociedade. A coordenação espontânea se desfaz, a coerção ocupa o lugar dos incentivos e a prosperidade dá lugar à escassez. Da abundância à pobreza, da autonomia à submissão, o país perdeu não apenas riqueza, mas a capacidade de decidir seu próprio destino.

Que o fim desse ciclo abra espaço para a reconstrução das instituições, a recuperação da liberdade econômica e o retorno de uma prosperidade soterrada por décadas de intervencionismo na Venezuela.

Vando dos Santos é economista e mestre em Economia pela Universidad de las Hespérides (Espanha).

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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