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Todo início de ano costuma renovar esperanças. É quando se espera que a paz, o diálogo e a convivência sejam valores reafirmados. Mas, ao abrirmos os jornais nos primeiros dias do ano, a sensação tem sido outra: os conflitos se acumulam. Do Pacífico à América Latina, da Europa à África, a violência parece atravessar fronteiras e ganhar contornos de normalidade. Esse pano de fundo é perigoso e não pode ser aceito como regra, sobretudo quando ultrapassa os limites do noticiário internacional, atravessa os muros das escolas e alcança crianças, professores e comunidades inteiras.
A escola é o berço da educação, do desenvolvimento e da liberdade intelectual. Precisa ser, antes de tudo, um ambiente seguro para aprender, crescer e fazer escolhas. Educação e paz não são agendas paralelas: caminham juntas. Naturalizar a violência, especialmente no cotidiano escolar, é comprometer não apenas o futuro das novas gerações, mas o próprio tecido da sociedade.
Estudos recentes indicam que a violência escolar aumentou no Brasil na última década, impulsionada pela escassez de políticas públicas eficazes, pela precarização da infraestrutura das unidades de ensino, pela desvalorização do magistério e pelo despreparo institucional para lidar com conflitos
Em um ano em que o Brasil discute eleições, o tema da segurança – e, de forma indissociável, da segurança nas escolas – tende a ocupar lugar central no debate público. A violência deixa de ser apenas um dado da realidade e passa a ser também um critério de escolha. Propostas concretas, baseadas em números, evidências e fatos verificáveis, capazes de dialogar com os reais anseios da população, serão observadas com atenção por eleitores, formadores de opinião e pela sociedade em geral. Quem conseguir apresentar caminhos consistentes para enfrentar esse desafio certamente terá esse compromisso levado em conta nas urnas.
Quando olho para trás, para o ano de 2025, vejo o quanto foi absolutamente fundamental termos insistido, ao longo da construção do novo Plano Nacional de Educação (PNE), que agora segue para o Senado, na inclusão de metas voltadas ao combate à violência nas escolas. Desde a Conferência Nacional de Educação (CONAE), etapa que antecedeu o plano, esse tema não estava sob o olhar dos formuladores. Permaneceu ausente em diferentes fases até que argumentos técnicos e a articulação da sociedade civil deixassem claro o óbvio: sem segurança, não há aprendizagem possível. E, felizmente, a matéria passou a ser incorporada no texto do novo plano.
Estudos recentes indicam que a violência escolar aumentou no Brasil na última década, impulsionada pela escassez de políticas públicas eficazes, pela precarização da infraestrutura das unidades de ensino, pela desvalorização do magistério e pelo despreparo institucional para lidar com conflitos. O resultado são vítimas letais e não letais, evasão escolar e a deterioração do clima educacional.
O próprio Ministério da Educação reconhece que a comunidade escolar é afetada por múltiplas formas de violência: agressões extremas, violência interpessoal e o chamado “bullying”, caracterizado por intimidações verbais, físicas ou psicológicas, de forma repetitiva. Soma-se a isso a violência do entorno escolar – marcada por tiroteios, assaltos e tráfico de drogas que invadem o cotidiano das escolas e ampliam a sensação de insegurança.
Os dados reforçam a urgência. O Atlas da Violência 2024, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que 11,4% dos estudantes deixaram de ir à escola por se sentirem inseguros, proporção que praticamente dobrou desde 2009. Esse diagnóstico é aprofundado pelos resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) 2024, a partir dos questionários respondidos por diretores escolares: 18% relataram a ocorrência de tráfico de drogas dentro das escolas; 23% informaram a presença de alunos frequentando as aulas sob efeito de drogas ilícitas; 14% sob efeito de bebida alcoólica; e 18% registraram casos de estudantes portando armas, como revólver, faca ou canivete. O levantamento também revela que 82% dos diretores reportaram ameaças ou ofensas verbais no ambiente escolar, enquanto 8% informaram que profissionais da escola foram vítimas de atentado à vida – números que evidenciam a gravidade e a complexidade da violência que atravessa o cotidiano educacional.
O avanço do “cyberbullying” agrava esse cenário. “Fake news”, ameaças, montagens falsas e discursos de ódio circulam com rapidez no ambiente digital. Cabe aos núcleos familiares, mas também à escola, oferecer letramento digital, ensinando crianças e adolescentes a interpretar conteúdos, reconhecer riscos e se proteger nas redes. O Brasil já apresenta avanços, especialmente no setor privado, mas esse conhecimento precisa ser universalizado.
Ao seguir para o Senado, o PNE exige atenção máxima. Combater a violência escolar não é acessório: é condição para qualquer política educacional efetiva. Jovens já enfrentam um futuro incerto, marcado por novas tecnologias e economias em rápida transformação. Se nem na escola conseguem se sentir seguros e compreender seus direitos, não avançaremos.
Esse desafio demanda uma força-tarefa que envolva Executivo, Legislativo, Judiciário, Ministério Público e setor produtivo. Como sociedade civil organizada, não podemos nos furtar de promover o debate, cobrar responsabilidade e exigir políticas públicas concretas e eficazes. Proteger a escola é proteger o futuro. Educação e paz precisam caminhar juntas, e agora.
Letícia Jacintho é presidente da De Olho no Material Escolar.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



