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O novo líder do Partido Conservador Boris Johnson
O Primeiro Ministro britânico, Boris Johnson.| Foto: Tolga AKMEN/AFP

O fantasma de Winston Churchill ainda paira sobre Washington e Londres. Vários presidentes norte-americanos já tomaram o líder britânico como modelo, principalmente em tempos de conflito.

George W. Bush era um grande admirador; por isso, durante os preparativos para a guerra do Iraque, o então primeiro-ministro Tony Blair lhe emprestou um busto de Churchill, enquanto o que já estava na Casa Branca há várias décadas era reformado. Quando Barack Obama devolveu a estátua, depois que a outra ficou pronta – como tinha ficado combinado antes de ele assumir o poder –, foi acusado por um político britânico de agir de tal maneira por despeito, por causa de sua "antipatia ancestral pelo Império Britânico, do qual Churchill sempre foi um defensor fervoroso".

O tal político era Boris Johnson, que se tornou o primeiro-ministro do Reino Unido na quarta, dia 31 de julho, e escreveu uma biografia bajuladora do estadista sem fazer muito esforço para amenizar a impressão de que se identificava grandemente com o homem: os maneirismos da classe alta, as piadas, a paixão pela grandeza e o fascínio, pós-Brexit, pelo mito dos tempos de guerra, levantando-se sozinho contra a ameaça nazista, o tão badalado "espírito de Dunquerque".

Trump, que colocou um busto de Churchill no Salão Oval com grande alarde, não tem os maneirismos da classe alta – aliás, nem boas maneiras. Apesar disso, é também um grande admirador de Churchill e de Johnson, a quem um tanto estranhamente chamou de "Trump britânico". Alguns correligionários do inglês veem isso como um sinal de que a relação especial anglo-americana será ressuscitada em toda a sua glória. Se for, ela representará tudo o que Churchill – e especialmente seu grande aliado de tempos de guerra, Franklin D. Roosevelt – desprezava.

De fato, ele era defensor do império e tinha sérios preconceitos raciais, principalmente contra os indianos, que detestava, mas era também um internacionalista. Longe de querer que o Reino Unido agisse sozinho durante a evacuação das tropas aliadas de Dunquerque, na primavera de 1940, Churchill inclusive contemplou a ideia de que seu país e a França se fundissem para, como uma única nação, combater Hitler.

O novo primeiro-ministro britânico às vezes dá a impressão de sentir saudade dos dias de glória do imperialismo britânico

A ideia do relacionamento especial entre os dois países também era, em grande parte, de Churchill. Sua mãe era norte-americana, ou seja, havia razões sentimentais. E também acreditava na grandeza dos "povos anglófonos". Entretanto, a relação nasceu da mais pura necessidade: Churchill sabia que o Reino Unido não poderia derrotar a Alemanha nazista sem a ajuda ativa dos EUA.

Roosevelt, que não era amigo do imperialismo britânico, tinha plena consciência do perigo que representava para os EUA uma Europa dominada pelo Terceiro Reich, mas, em 1940, a maioria de seus conterrâneos não estava lá muito disposta a ir à guerra para ajudar o Reino Unido. E a oposição mais ferrenha foi a dos isolacionistas da direita, sendo que alguns deles, inclusive, tinham mais do que uma simpatia fugidia pelos nazistas, como o aviador Charles Lindbergh. O slogan da ala, revivido pela campanha de Trump, em 2016, era "os EUA em primeiro lugar".

Ao fim de 1941, o ataque japonês a Pearl Harbor e a declaração de guerra de Hitler contra os norte-americanos silenciaram os adeptos dessa ala. Churchill e Roosevelt criaram a Carta do Atlântico, prevendo o mundo após a derrota nazista, documento caracterizado por ideias profundamente internacionalistas, como a cooperação entre os países, o comércio livre e a liberdade política para todos. A ONU, tão desprezada pelo governo Trump, nasceu a partir dele.

Com a guerra ganha, Churchill fez o famoso discurso em Zurique, no qual pedia a criação dos Estados Unidos da Europa. Acreditava que somente uma integração continental plena poderia impedir outra guerra devastadora, ainda que tenha deixado meio vago o papel que seu país ocuparia nesse esquema ambicioso. Churchill achava que o Reino Unido, os EUA e a União Soviética deveriam pelo menos ser patrocinadores solidários de uma Europa unida. Muitos membros de sua geração achavam complicado ver o Reino Unido apenas como outro país europeu qualquer, no mesmo nível que França ou Itália. Entre os 52% de britânicos que votaram a favor do Brexit, muitos continuam tendo essa dificuldade.

O novo primeiro-ministro britânico às vezes dá a impressão de sentir saudade dos dias de glória do imperialismo britânico. Quando visitou Mianmar, ainda como secretário das Relações Exteriores, em setembro de 2017, deixou os anfitriões e o embaixador britânico estupefatos ao recitar o poema paternalista de Rudyard Kipling, Road to Mandalay, no Pagode Shwedagon, um dos principais núcleos budistas do país.

Mas até os defensores mais radicais do Brexit sabem que esse tempo já passou. Alguns, incluindo talvez o próprio Johnson, veem o Reino Unido futuro como uma versão maior de Singapura, um tipo de zona franca portuária de baixos impostos e pouca regulamentação; outros torcem para que se torne uma força global novamente depois de se livrar do que veem como "as correntes de Bruxelas". Há também um terceiro grupo que acredita que a revitalização da relação especial com os EUA seja o portal para a grandeza nacional.

O relacionamento especial apela a outro tipo de nostalgia: o vínculo com a maior nação dos povos anglófonos, que muitos britânicos mais velhos, na maioria brancos, acham mais agradável do que acordos feitos com estrangeiros do Continente, que comem alho e falam línguas estranhas.

Johnson apelou para todos esses recursos, mas o que a maioria dos pró-Brexit tem em comum é a obsessão com a soberania nacional, a "recuperação do controle", e o afastamento dos estrangeiros – ou seja, o anseio pelo antigo conceito britânico do isolamento esplêndido.

Daí o fetiche pelo espírito de Dunquerque, usado, com grande sucesso, na campanha pelo Brexit – e também a retórica de Johnson envolvendo a fantasia da bravura dos tempos de guerra.

Quando ele promete que o Reino Unido vai deixar a União Europeia até 31 de outubro "de qualquer maneira", está imitando a rebeldia canina de Churchill ao inimigo nazista. Como Trump, ele tem uma crença exagerada no poderio nacional e na tese de seu país em primeiro lugar, sem levar muito em consideração as instituições internacionais ou os acordos de cooperação, ainda que muitos deles tenham sido estabelecidos por governos britânicos e norte-americanos logo após a Segunda Guerra Mundial.

Os EUA podem se dar ao luxo de passar por cima das normas globais, pelo menos durante um tempo, porque são um país enorme, com uma economia interna sólida, um poderio militar sem paralelo e excelentes fontes de recursos naturais; o Reino Unido não tem nada disso. A ideia de que o país, agindo sozinho, possa se equiparar, em termos favoráveis, a potências muito maiores como a China, a Europa ou até mesmo os EUA, é uma ilusão. Se sair da União Europeia, o Reino Unido se tornará uma nação provinciana mediana, cuja sorte passará a depender dos caprichos dos outros. Trump provavelmente não estará nem aí. Churchill teria ficado horrorizado.

Ian Buruma, professor do Bard College, está escrevendo um livro sobre as relações anglo-americanas.

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