A Semana Nacional pela Cidadania e Solidariedade, que celebramos até o próximo domingo, nos repõe, entre outros bons sentimentos e projetos, a presença inesquecível de Herbert de Souza, o nosso Betinho. Essa mobilização se une às valiosas contribuições coletivas com vistas às Metas do Milênio fixadas pela ONU, e a data da celebração é também uma justa homenagem à memória desse notável brasileiro, que nos deixou em 9 de agosto de 1997. Se já não podemos mais sonhar com a volta do irmão do Henfil, podemos reafirmar os nossos compromissos e reafirmar as nossas ações no sentido de realizar os sonhos daquele que se tornou uma espécie de porta-voz da consciência cívica e humanitária do nosso país.
Betinho formou-se na geração da JUC (Juventude Universitária Católica), que recebeu a influência do pensamento e da prática social cristãos, entre eles o notável Padre Lebret, inspirador da encíclica sobre o Desenvolvimento dos Povos, a Populorum Progressio, do Papa Paulo VI. Lebret era um incansável estudioso das questões econômicas à luz dos princípios éticos dos Evangelhos e articulou uma grande rede de pesquisadores, pessoas e entidades em torno desse compromisso. Betinho aprendeu com ele que a economia é um instrumento para promover o bem maior, que é o desenvolvimento com justiça social. A primazia e o fim último são sempre a vida e a dignidade da pessoa humana. Teoricamente as pessoas razoáveis concordam com isso. Economistas notáveis têm reafirmado essa compreensão hierárquica dos valores e da organização da sociedade: John Kenneth Galbraith, Gunnar Myrdal, Raul Prebisch, Celso furtado e, mais recentemente, ganhadores do Prêmio Nobel de Economia como Joseph Stiglitz e Amartya Sen. Mas promover uma maior eqüidade social, assegurar na prática os direitos que garantam e promovam a vida humana, implica distribuir riquezas e bens, eliminar privilégios, tributar de forma mais justa as grandes propriedades e lucros.
Se há uma concordância nos princípios, surgem as discórdias quanto aos métodos porque os mais ricos sempre acham que precisam um pouquinho mais... O dinheiro é de fato um substitutivo de Deus, o bezerro de ouro. Vivemos uma era dominada pelo econômico que me faz lembrar uma história que contava o saudoso professor Edgar da Mata-Machado sobre o poeta Murilo Mendes e suas manifestações muito próprias e singulares: diante de um prédio bancário, o autor de "Poesia Liberdade" tirava o chapéu com respeito, curvava a cabeça e fazia a devida reverência como se estivesse diante do território sagrado que anuncia o mistério e a presença de Deus. Católico, e com refinada ironia, afirmava que os bancos eram os novos templos do nosso tempo.
Além do mercado financeiro, cada dia mais personalizado ("o mercado reage, o mercado se agita e fica nervoso, o mercado se acalma") e com sentimentos imperscrutáveis, temos a explosão da propaganda consumista quase sempre associada a um erotismo vulgar, com o dinheiro abrindo portas, comprando facilidades e uma felicidade falsa.
Nesse contexto histórico, marcado pela hegemonia incontrastável do capital, Betinho vive a última quadra grandiosa de sua vida, mobilizando as consciências nos esforços e ações coletivas contra a fome e a miséria, abrindo novos horizontes sobre os direitos e deveres da cidadania, a democratização da terra e das oportunidades. Betinho resgata o legado moral e espiritual daqueles que trabalhavam para assegurar a todos os compatriotas o direito humano e fundamental à alimentação. Em nome de tantos, tanto maiores quanto mais anônimos, podemos resgatar as memórias de Josué de Castro e dom Hélder Câmara.
O legado de Betinho e de seus companheiros, de esperanças e lutas generosas, está se consolidando. Milhares, milhões de pessoas de boa vontade estão se mobilizando em iniciativas individuais e coletivas e se integrando aos programas e ações do Fome Zero para que possamos juntos, governos e sociedade, cumprirmos as metas do milênio e erradicarmos a fome, a desnutrição e promovermos a mais ampla e transformadora inclusão social no Brasil.
Por sua vez, o governo do presidente Lula, está consolidando no país uma rede de proteção e promoção como jamais tivemos. O desafio do direito à alimentação com regularidade, qualidade e quantidade para todos tornou-se tema e procedimentos concretos de políticas públicas. Estamos avançando. Betinho foi o grande marco nesta semana que explicita os melhores sentimentos do povo brasileiro.



