Tocar um instrumento musical é inútil. Esta inutilidade é o que faz com que poucas coisas possam ser mais adequadas à nossa natureza. Nenhum animal faz música por razões estéticas; os cantos dos pássaros são uma comunicação tão prosaica quanto nossas cartas comerciais.
Tocar um instrumento, contudo, implica passar horas a fio, dia após dia, ano após ano, treinando escalas e exercícios de mecanismo, tocando algo que não é música para que um dia se a possa tocar.
A música, atividade tão humana, não tem nenhum fim útil. É bem verdade que ela afeta nossas emoções, e até pode ser usada para excitar uma multidão ou acalmar um aflito. É desproporcional, contudo, o esforço despendido e seu efeito. Tocar um instrumento exige dezenas de milhares de horas de prática; uma música dura alguns minutos, apenas.
Desde o início da humanidade, no entanto, fazemos música. Flautas de osso foram encontradas em cavernas ancestrais, e os primeiros documentos escritos já fazem referência à música.
Isso ocorre porque o homem não é como os demais animais. Nosso objetivo é maior que a simples sobrevivência; percebemos que há algo além, há um Bem que, quando expresso de forma ordenada, percebemos no belo. Já dizia o poeta que "a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte". A música é, continuando os versos, uma "saída". Saída da prisão do imanente, da luta pela próxima refeição, da necessidade de proteger-se dos elementos, de, em suma, tudo aquilo que é útil, que faz sentido.
Uma sociedade sem música seria uma sociedade aparentemente prática, voltada às necessidades físicas do homem. Mas não seria uma sociedade humana. Não seria uma sociedade que percebe haver algo além, algo mais, algo que faz com que percebamos a beleza do mundo, com que notemos o que os antigos chamavam de "ordem das esferas".
A mesma matemática que constrói casas constrói instrumentos; a música, em si, é matemática. Algo que vibra 440 vezes por segundo nos dá um "lá", e se vibrar duas vezes mais rápido nos dará a mesma nota uma oitava acima. O ar, invisível, vibra no interior dos instrumentos de sopro e é docemente empurrado pelas cordas do violão. Esta vibração, numericamente perfeita, chega a nossos ouvidos e nos leva além. Além da matemática que constrói pontes, além da utilidade do que nos alimenta. Além do corpo, além dos problemas, além das soluções engenhosas.
A música é perfeitamente inútil. E, por isso, é perfeitamente valiosa, e perfeitamente humana. Como é bom poder tocar um instrumento!
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