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Opinião 1

Convém prestar atenção em Marx

Há alguns dias, enquanto eu sintetizava alguns pontos do pensamento de Karl Marx, um aluno perguntou se eu era marxista. Respondi-lhe que não, mas que toda ideia ou crença deve ser confrontada com seu contrário e convém prestar atenção em seus críticos. Marx não era defensor do capitalismo, mas era um de seus melhores estudiosos.

Ele era um crítico feroz do capitalismo, mas também era crítico dos seguidores de suas teorias, a ponto de um dia afirmar "eu não sou marxista", querendo com isso dizer que seus seguidores não deveriam dispensar a ciência e a razão e transformar o marxismo em religião. Foi em vão. O marxismo tornou-se uma religião e seus adeptos sentiram-se dispensados da árdua tarefa de estudar, entender suas teorias e confrontá-las com as teorias contrárias.

Lembrei ao aluno que não é pelo fato de o socialismo ter fracassado como alternativa ao capitalismo que devemos desprezar as críticas feitas por Marx. Pelo contrário: é importante prestar atenção em Marx e usar suas críticas para melhorar o sistema capitalista e corrigir-lhe os defeitos tanto quanto possível.

Quem resumiu bem as ideias de Marx foi o economista André Lara Resende. Ele destaca quatro críticas de Marx ao capitalismo: a econômica, a social, a política e a cultural.

Na crítica econômica, ele dizia que o sistema capitalista é instável, sujeito a crises recorrentes, iria acabar numa crise final e abriria espaço para a alternativa socialista. Mas Marx alertava os socialistas para tratarem de entender duas coisas: a lei da escassez e a função da produtividade. A maioria dos marxistas não entendeu a advertência – o fanatismo não deixou.

Na crítica social, Marx afirmava que o capitalismo é injusto, se baseia na exploração do trabalho assalariado, levaria à concentração da renda e seria incapaz de erradicar a pobreza, pois ela seria do interesse do sistema ao exercer o papel funcional de construir um "exército industrial de reserva", ou seja, uma legião de operários pobres dispostos a trabalhar por salários baixos.

Na crítica política, ele dizia que a democracia no capitalismo é uma impostura, pois a alienação cultural impediria os trabalhadores de compreender que não há interesses comuns, mas sim interesses de classes, que não podem ser reconciliados na democracia representativa capitalista. Marx não contava com o poder dos sindicatos, que se tornaram um freio para a exploração que ele tanto temia.

Na crítica cultural, Marx afirmava que o sistema levaria à alienação dos trabalhadores em relação a seus verdadeiros objetivos. No capitalismo, a sociedade seria consumista, egoísta, alienada e incapaz de entender o sistema. Eventuais acessos a "coisas" fúteis e supérfluas manteriam a população na ignorância e na alienação.

Essas críticas duras podem ser exageradas, pois foram feitas na segunda metade do século 19 (O Capital teve sua primeira parte editada em 1867), mas convém prestar atenção nelas, justamente porque, conquanto tenha se revelado uma fantástica máquina de produzir, o sistema capitalista não tem a mesma eficiência como máquina de distribuir.

Os tributos deveriam corrigir a deficiência distributiva, por meio de serviços públicos. Infelizmente, o Estado inchou demais, tornou-se corrupto e ineficiente, minando a capacidade social dos impostos. Por isso, para salvar o capitalismo é preciso salvar o Estado, e não o contrário, como pensam muitos de nossos marxistas, cuja maioria nunca leu Marx.

José Pio Martins, economista, é reitor da Universidade Positivo.

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