Os avanços das ciências de todos os ramos são sempre reveladores de novos campos a conquistar. Os erros revelam que o conhecimento humano é também falível e, muitas vezes, estamos enganados relativamente à verdade a respeito do Universo. A consciência de que o conhecimento é passível de erro mostra que a verdade é muito maior do que as teorias. Assim, nunca conseguimos conhecer toda a verdade, mas apenas parte dela. Por isso, não podemos nos afastar da humildade e devemos dedicar respeito aos que conhecem o que ainda desconhecemos.
Apesar de dezenas de conflitos regionais, neste momento, a humanidade nutre desejos de paz, justiça, entendimento e prosperidade, valores cada vez mais proclamados. Por outro lado, também afirma-se não haver mais valores que servem como princípios comuns a todos. Ao contrário, parece haver somente valores "meus" e "seus" que não precisam, necessariamente, ser idênticos. A este nível de questionamento chegou a noção de valor que a cultura pós-moderna criou. Em face disso, julgo ser imprescindível voltar os olhos para a dimensão da sabedoria, que está muito acima dos conhecimentos, tecnologias e informações.
Diferentemente do conhecimento, a sabedoria não só é encontrada em livros; deve ser vivenciada. O aluno, por exemplo, pode encontrá-la sobretudo nas palavras, exemplos, comportamentos, relacionamentos e tantas outras demonstrações que os verdadeiros mestres da vida, gentilmente, lhe oferecem. Ser permanentemente um aprendiz é postura fundamental de vida de professores, pais, religiosos, comunicadores, dirigentes, políticos, lideranças e estudantes. O sábio é capaz de perceber que existem novos paradigmas a ser desvendado. Como nos lembra Thomas Kuhn, a sabedoria consiste em admitir que o paradigma não é o paradigma e, por essa razão, devemos estar sempre dispostos a aprender.
A sabedoria não é como um simples valor cultural, mas como um valor da vida humana. Assim, a pessoa sábia não se assemelha aos grandes conhecedores de línguas e costumes, de obras de arte e de peças musicais, de fórmulas matemáticas e de esquemas racionais, que são cegos para os valores da vida, da ética e da transcendência. O sábio transcende o próprio conhecimento, sabe não somente falar sobre os mistérios da vida, mas, sobretudo, sabe dizer qual é o sentido que a vida contém. O sábio é, quando exterioriza seu ser, aquele que consegue formar, ao mesmo tempo, o profissional hábil e o cidadão honesto, o trabalhador da técnica e o homem da vida, o estudante disposto a aprender a aprender e o executivo preparado para fazer e ser. São Marcelino Champagnat, fundador da Congregação dos Irmãos Maristas, ensina: "O testemunho pessoal e comunitário dos educadores maristas, religiosos consagrados e leigos, é tão importante quanto as atividades que realizam nas escolas, universidades, hospitais, meios de comunicação, catequese."
Sob certo ponto de vista, as crises atuais, no Brasil e em muitas partes do mundo, são crises de valores que se sustentam no relativismo. Segundo tal tendência, tudo é relativo aos diferentes gostos pessoais de cada um. Mais importante do que imprimir velocidade para descoberta de novos conhecimentos científicos e tecnológicos, é premente a necessidade de resgatar a sabedoria iluminada pela luz de um novo humanismo, centrado na dignidade e integridade humana, respeito ao semelhante e à natureza, solidariedade, otimismo, liberdade, entusiasmo, esperança e desenvolvimento social. E de que mais estão precisando o jovem de hoje e o homem de nossos dias?
Portanto, a sabedoria é a justa medida, a visão equilibrada, o ponto de convergência dos múltiplos interesses e valores, da harmonia dialogada entre ciência e transcendência, dos princípios que se propõem e dispõem a construir um universo mais igual para todos os seus habitantes, dos ditames, significados e verdadeiras razões da nossa existência. A sabedoria afirma, por exemplo, que a corrupção e a ausência de ética não se constituem em liberdade plena, mas proclamam, ao contrário, a desumanização e a deterioração do ser humano. O bem e o bem-estar do semelhante são as grandes vontades e dimensões existenciais do Criador e de todas as suas criaturas.
Clemente Ivo Juliatto é reitor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e 2.º vice-presidente da Associação Brasileira de Universidades Católicas (Abruc).



