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Nenhum desastre natural ocorrido no Brasil fez a presidente Dilma Rousseff se mexer tão rapidamente quanto o desastre causado à imagem do ex-presidente Lula, que teve de depor na Polícia Federal na última sexta-feira, como parte das investigações da Operação Lava Jato. Se no dia do depoimento Dilma falou publicamente e priorizou a própria defesa, ainda sob o impacto da divulgação do que seria a delação premiada do senador Delcídio do Amaral, no sábado Dilma embarcou no avião presidencial em Brasília; do aeroporto paulistano de Congonhas, tomou um helicóptero até São Bernardo do Campo, terminando de carro o trajeto até o apartamento de Lula. Tudo isso com a companhia do ministro-chefe da Casa Civil, Jaques Wagner. E nada disso como parte da agenda oficial presidencial.

O uso de recursos da Presidência da República para uma visita de caráter pessoal já está sendo questionado pela oposição, mas esse nem nos parece ser o aspecto mais grave do ocorrido no sábado. Pois não se tratou de uma mera visita entre amigos – ainda que seja esta uma amizade peculiar, em que Lula sabota o governo Dilma e trabalha para derrubar seus ministros –; a presidente esteve no ABC paulista com o objetivo específico de prestar solidariedade ao seu antecessor e criador depois da condução coercitiva. A presidente da República foi prestigiar um homem que, na sexta-feira à tarde, havia desferido um duro ataque contra as instituições democráticas, a Polícia Federal, o Judiciário, o Ministério Público, a imprensa independente. E foi prestigiá-lo pela mesma razão que motivou esses ataques. O que pensar quando a maior autoridade do país age desta maneira em relação a um adversário contumaz das instituições?

Entre a defesa das instituições e a defesa de um adversário delas, Dilma escolheu a segunda opção

No sábado, Dilma não falou com os jornalistas, nem fez discursos. Na sexta-feira, além da breve menção ao caso no pronunciamento à imprensa, a presidente já tinha criticado a condução coercitiva em encontros com prefeitos de capitais e governadores (apenas um deles, Pedro Taques, governador do Mato Grosso do Sul, contestou a presidente). A manifestação pública mais enfática só ocorreu na segunda-feira, em Caxias do Sul (RS), durante uma entrega de imóveis do Minha Casa, Minha Vida. Além das já surradas críticas à oposição, Dilma disse que Lula “nunca se recusou [a depor] (...) Sempre aceitou, convidado para prestar esclarecimento, sempre foi”. Pelo jeito, Dilma ignorou todas as manobras usadas por Lula e sua defesa nos últimos dias para não ter de depor ao Ministério Público Estadual paulista: pedidos de liminar, de habeas corpus, esclarecimentos por escrito...

No mesmo discurso, a presidente ainda acrescentou que “nunca o presidente Lula, justiça seja feita, nunca se julgou melhor do que ninguém” – difícil crer que Dilma estivesse, com essas palavras, descrevendo o homem que rotineiramente se julga acima de qualquer suspeita e acima das próprias leis e instituições; que afirmou não haver neste país “uma viva alma mais honesta” que ele; ou que, na noite de sexta-feira, em um sindicato, disse que “pode pegar o Procurador da República, o [juiz federal Sergio] Moro, qualquer delegado, e se um deles for um real mais honesto do que eu, desisto da vida pública”.

A viagem e os pronunciamentos de Dilma não são a mera atitude que alguém adota diante de um amigo em dificuldades: o que o Brasil viu foi a presidente da República lançar o peso de seu cargo (e algumas vantagens que esse cargo lhe concede) na defesa enfática de alguém que, desde 2003, trabalhou ativamente pela desmoralização das instituições brasileiras. Entre essas instituições e um adversário delas, Dilma escolheu a segunda opção. E isso diz muito sobre as credenciais morais que lhe faltam para bem governar o Brasil.

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