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Editorial 1

A grande cidade pequena

As eleições de 2008 certamente não vão entrar para história política do município. A disputa foi sonolenta, a concorrência morna, a participação do público mais acanhada do que procissão em dia de chuva. Alguns debates lembram a disputa pelo grêmio estudantil, tamanha indigência. Sem falar nos jingles, usados como escape para o essencial – a discussão de propostas. Sequer alcançam o "efeito chiclete": raro flagrar alguém assobiando espontaneamente uma musiquinha de campanha.

Mas em um aspecto o pleito deste ano está imbatível – os candidatos à Câmara Municipal se esmeraram na escolha do nome de chapa. Rebatizaram-se em grande estilo. Merece um estudo sociológico. Aos fatos. Dos 796 candidatos a vereador, 280 – 35% – decidiram não ser identificados pelo nome de batismo, mas pela profissão, bairro, apelido ou religião.

Não se trata obviamente de uma novidade. O marketing político é Ph.D. em ajudar o eleitor a guardar o nome de um candidato, nem que seja para repetir o efeito Macaco Tião. É um vale-tudo – da originalidade ao mau gosto. O que chama a atenção na disputa curitibana de 2008 é que na metrópole de 1,8 milhão de habitantes um número expressivo de candidatos adotou identidades interioranas. Muitas parecem ter saído de algumas daquelas novelas do Dias Gomes. Ou das páginas de Monteiro Lobato.

É o caso de Agostinho da Floricultura, Paula da Auto-Escola, Toninho da Farmácia, Maurício do Carreto, Toninho do Gás, Tady do Espetinho, Ernesto da Estofaria, Fernando da Padaria, Francisco Serralheiro, Zé da Banca e Luís da Banca, Julinho do Bar, Tia do Doce, Marcelo da Olaria, Márcia Despachante, Sílvia da Loja, Serginho do Posto – para citar alguns.

A necessidade de ser percebido como alguém não só próximo do eleitor, mas também íntimo, tem outras variações para o tema – todas merecedoras de observação: dos 796 candidatos, 45 se identificam como professores; 38 como profissionais de saúde, sendo 20 deles doutores, de jaleco e tudo. Nada menos do que 62 agregaram a profissão ao nome. E com vitória esmagadora na categoria "alter ego", 93 preferem ser chamados pelos apelidos, o que por certo funciona como um sopro na memória de vizinhos e colegas do antigo ginásio.

Dá pano para manga. Títulos como o de professor e doutor são bons cartões de visita, carregam consigo grandes causas públicas, mas também mostram como a saúde e a educação se tornaram plataformas eleitorais. Não se trata de uma crítica, mas de um ponto a considerar num futuro próximo.

Esse aspecto, inclusive, está longe de ser o mais curioso da lista dos vereadores. Em 2008, por exemplo, apenas nove candidados se apresentam como pastores e presbíteros. E míseros 16 candidatos acoplaram o nome do bairro ao próprio nome – sendo que dois não dizem nem de que bairro são.

Basta conferir: Dirceu do Pantanal, Dani da São Pedro, Edson Parolin, Chico do Uberaba, Chiquinho da CIC, Joarez do Bairro, Zezinho do Bairro Novo, Zezinho do Sabará, Nice Santa Helena, Lucimar do Barigüi, Luciano Cajuru, Cida do São Pedro, Marcílio do Bairro, Palhacinho do Batel, Terezinha do Boa Vista, Paulinho do Capão da Imbuia.

De duas uma: ou igrejas evangélicas e associações de bairro não são mais representativas nas urnas ou estão organizadas o bastante para não se dividir em demasia no campo de batalha. As urnas vão dizer.

Outra categoria implícita na lista dos 796 são as minorias. As atividades físicas – tão praticadas – só geraram três candidatos: o Souza do Esporte, Nivaldo Terceira Roda e Carlitos Ciclista. Também com três titulares estão os cabeleireiros (Júlio, Fátima e Rose) e os carteiros (Victor, Palhares e Miranda). Muitas raias à frente figuram os que associaram seus nomes ao mais poderoso dos sentidos – a gula. Nada menos do que dez candidatos preferiram ser associados à alimentação. A lista passa pelo Cristiano do Hot-Dog Yracema, João do Suco, Zé da Coxinha, Luís do Pão e por Kike do Coco. Não inclui o Magrão. Bom apetite.

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