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Editorial

A reconstrução da esquerda

Existe espaço para uma esquerda que rejeite a defesa da corrupção, do autoritarismo, do enfrentamento e do desrespeito à ordem jurídica que caracterizam o PT

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 | Ricardo Stuckert/Divulgação
Ricardo Stuckert/Divulgação
 
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A confirmação da condenação do ex-presidente Lula por corrupção e lavagem de dinheiro no Tribunal Regional Federal da 4.ª Região colocou a esquerda brasileira em um dilema. Não do ponto de vista meramente eleitoral – até porque vários partidos que tradicionalmente se aliavam ao petismo nas urnas já decidiram seguir caminho próprio, lançando seus pré-candidatos –, mas de um ponto de vista mais amplo: quais são os caminhos que a esquerda tem à frente para ser um ator político relevante no Brasil?

O petismo vem trilhando um caminho perigoso desde que, nos primeiros anos do governo Lula, seus chefões se viram envolvidos no que, até então, era o principal escândalo de corrupção da história do Brasil: o mensalão. Não pelos valores envolvidos, mas pelo seu caráter de negação da própria dinâmica democrática e da independência entre poderes, por meio da compra de apoio parlamentar. No entanto, em vez de fazer um profundo exame de consciência interno – como, aliás, foi proposto por petistas como Olívio Dutra –, o partido escolheu o confronto com o Poder Judiciário, afirmando que José Dirceu, José Genoino, Delubio Soares e João Paulo Cunha eram “guerreiros do povo brasileiro”, vítimas de um “julgamento de exceção”. Entre a Justiça e os bandidos, o partido abraçou os bandidos e, no processo, rasgou até o próprio estatuto, que previa a expulsão de membros condenados nas mesmas circunstâncias dos mensaleiros. Lula passou incólume pelo furacão, mas foi mudando de discurso: começou alegando que tinha sido traído pelos companheiros para terminar jurando que a roubalheira nunca tinha ocorrido.

Entre a Justiça e os bandidos, o partido abraçou os bandidos

Com a torneira do mensalão fechada, o PT passou a saquear a maior empresa do país, a Petrobras, no esquema ora desvendado pela Operação Lava Jato, e o roteiro se repetiu, com a aclamação pública de políticos e tesoureiros que caíam um após o outro. Com uma grande diferença: desta vez, as investigações conseguiram chegar até Lula. Seu julgamento – o primeiro, já que o ex-presidente responde a outros processos, alguns dos quais fruto de outras operações, como a Janus e a Zelotes – mobilizou a militância; de forma nunca antes vista neste país, líderes petistas mostraram sua verdadeira face. Senadores da República, como Gleisi Hoffmann e Lindbergh Farias, pregaram abertamente a desobediência a decisões judiciais, com direito a insinuações de resistência física a uma eventual ordem de prisão contra Lula. Os chefões de “movimentos sociais”, nome dado a entidades que orbitam o petismo e frequentemente usam da força e da violência para impor seu ideário, também deixaram claro que não pretendem acatar as determinações do Judiciário.

A postura adotada no mensalão e, especialmente, no petrolão é o resumo perfeito da forma como essa esquerda age: culto à personalidade; convicção de que os fins justificam os meios e, portanto, os crimes cometidos pelo bem do partido são atos meritórios; negação dos princípios democráticos; desrespeito às instituições, vistas como subordinadas aos interesses do partido; transformação dos bens públicos em patrimônio partidário; apoio irrestrito a ditaduras que oprimem e matam seu povo. Só a profunda adesão a esse modus operandi explica que ainda haja quem defenda Lula, mesmo depois de todas as evidências didaticamente apresentadas pelo juiz Sergio Moro em sua sentença e pelos desembargadores João Pedro Gebran Neto, Leandro Paulsen e Victor Laus em seus votos no TRF4.

Leia também: A face autoritária do PT (editorial de 20 de janeiro de 2018)

Leia também: O TRF4 e a verdade sobre Lula (editorial de 25 de janeiro de 2018)

Uma esquerda que tenha compromisso com a ética na política, com o Estado Democrático de Direito, com o respeito às instituições e com a dignidade humana seria um ator político relevante e necessário na política nacional, ainda que possamos discordar de boa parte de suas posições. Construir esta esquerda é o papel que se espera daqueles que, compartilhando dessa filosofia política, abominam o caminho que o petismo vem trilhando, arrastando consigo outros partidos e entidades. Quanto aos que até agora têm abraçado a defesa da corrupção, do autoritarismo, do enfrentamento, do desrespeito à ordem jurídica, ainda há tempo de uma reflexão e de uma correção de rumos, para que também eles colaborem com uma refundação da esquerda com base em princípios republicanos.

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