A nova onda de beligerância no Oriente Médio, envolvendo o confronto direto entre as forças regulares de Israel e grupos terroristas islâmicos, coloca outra vez nesse cenário a tríplice fronteira a região de confluência entre Brasil, Paraguai e Argentina, tendo como centro Foz do Iguaçu, no Extremo-Oeste do Paraná. Cidade onde habitam 12 mil imigrantes árabes, em sua maioria muçulmanos dedicados ao enorme e buliçoso comércio da região, para lá convergem suspeitas de que seria abrigo e fonte geradora de recursos para financiar ações terroristas mundo afora.
Com base nessa suspeita periodicamente levantada, mas nunca comprovada , o governo norte-americano anunciou na semana passada sua decisão de constituir uma força-tarefa para atuar na região. A diplomacia brasileira já se manifestou contra tal intento, classificando-o como uma agressão desmedida e injustificável à soberania nacional. É claro, causou também profunda revolta à colônia árabe local e a toda a comunidade de Foz e da vizinha paraguaia Ciudad del Este.
O repúdio, ao qual nos associamos, contra a nova investida dos Estados Unidos não nos isenta, no entanto, da obrigação de reconhecer que, de fato, a região é foco permanente e incontroverso de preocupações quanto a aspectos de segurança nacional e pública e de licitude em relação à boa parte da intensa atividade que lá se pratica.
As estatísticas estão aí para comprovar que a área registra os mais elevados índices de criminalidade, constituindo-se num ativo centro de tráfico de drogas e de armas, lavagem de dinheiro, corrupção de agentes públicos, contrabando, pirataria, furtos de veículos e de inúmeros outros crimes decorrentes incluindo o de homicídios. Bilhões de dólares são gerados dessa maneira em volume talvez maior do que as divisas produzidas pela atividade honesta e formal do comércio e da exploração de seus recursos turísticos e energéticos.
Mas daí a vincular essa situação anômala ao terrorismo internacional há uma longa distância. Soaria cômica, não fosse trágica, a visão exagerada que pretende imputar à nossa tríplice fronteira a responsabilidade pelo crônico conflito no Oriente Médio.
O fato de a área concentrar a segunda maior colônia árabe/muçulmana do Brasil (perdendo apenas para a de São Paulo) não é, de forma alguma, suficiente para que ela seja, in limine, colocada sob a suspeição de manter ligações organizadas com grupos radicais como o Hezbollah e o Hamas, supostamente os principais beneficiários dos vultosos recursos ilegais lá gerados. E, em nome desta suposição, ser alvo da intromissão policial e militar em gestação pelo presidente George W. Bush e pelo Congresso norte-americano.
Mais do que qualquer ação do gênero, o que mais se faz necessário na região é uma ação proativa e integrada dos governos do Brasil, Argentina e do Paraguai, voltada efetivamente para o seu desenvolvimento econômico e social. Ações exclusiva ou predominantemente repressivas como as que se fazem na fronteira não bastam, como, aliás, provam sobejamente os fatos.
Os países diretamente envolvidos dispõem de condições institucionais, representadas sobretudo pelo Mercosul, para promover o progresso regional em bases legais este sim o meio mais eficaz para combater o crime e eliminar supostas razões de vínculo da área com o terrorismo.



