
“Não tem macroeconomia, não tem câmbio: se tiver dinheiro na mão do povo, está resolvido o nosso problema”, afirmou o presidente Lula na última reunião ministerial de 2025. “O nosso problema”, muito provavelmente, é uma referência a outubro de 2026, e não à situação do país, a julgar pelo Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF) divulgado pela Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado, no dia seguinte à fala de Lula. O documento, elaborado por analistas sem vinculação partidária, mostra um cenário econômico insustentável para as contas públicas graças à expansão ilimitada do gasto governamental – que, como disse Lula, é política que o governo adota deliberadamente, não consequência de algum imprevisto.
Quando a IFI fala em “alimentar incertezas sobre a sustentabilidade do atual regime fiscal”, está usando um eufemismo. Os próprios dados do RAF demonstram que o arcabouço fiscal proposto pelo próprio governo Lula em 2023 (ou seja, nem mesmo a desculpa da “herança maldita” pode ser usada) já está totalmente desmoralizado: continua a existir formalmente no papel, com suas metas e limitadores de aumento da despesa, mas é violado dia sim, dia também, graças a uma série de exclusões e exceções, com gastos que não serão considerados no cálculo do cumprimento da meta de resultado primário, mas que não deixam de ter seu custo: é dinheiro que sai dos cofres públicos, esteja ou não na conta oficial, e exige ou aumento na arrecadação, ou endividamento, ou emissão de moeda.
O Relatório de Acompanhamento Fiscal mostra um cenário econômico insustentável para as contas públicas graças à expansão ilimitada do gasto governamental
Arrecadação e endividamento, aliás, têm papel importante no RAF. Lula e Fernando Haddad devem terminar este mandato com a proeza de elevar a dívida pública como proporção do PIB em inacreditáveis dez pontos porcentuais – bem acima da média tanto da América Latina quanto dos países emergentes, segundo dados do Fundo Monetário Internacional. E este não é o único quesito em que o Brasil apresenta esta liderança bastante desabonadora. Ao comentar a estratégia lulista de fechar as contas elevando impostos, a IFI escreve que ela “esbarra no fato de o Brasil, hoje, ser líder em termos de carga tributária entre os países latino-americanos e emergentes, o que cristalizou resistências a essa estratégia na sociedade brasileira e no Congresso Nacional”.
Os analistas da IFI afirmam que, em um cenário como este, a inflação só vai convergir para a meta do Conselho Monetário Nacional não por causa de qualquer política governamental, mas apesar de Lula e Haddad. Foi o aperto monetário que o Banco Central teve de instituir como contrapeso à política fiscal frouxa que freou uma economia que o governo gostaria de manter superaquecida pelo máximo de tempo possível, para conseguir dividendos eleitorais – a mesma estratégia que garantiu a reeleição de Dilma Rousseff em 2014, e que levou à recessão de 2015-16. O relatório deixa subentendido que a continuação da gastança em 2026 pode afetar um eventual ciclo de redução dos juros, mesmo com o IPCA voltando para dentro dos limites de tolerância da meta atual.
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Lula tem tempo suficiente na vida pública para já ter compreendido que contas em ordem beneficiam os mais pobres de forma muito mais efetiva e duradoura que sacrificar a saúde fiscal do país para botar “dinheiro na mão do povo”; se não aprendeu, estamos diante de um caso crônico de ignorância misturada com teimosia. O caos fiscal, nos governos petistas, não é acidente, mas método: pode até gerar bons indicadores no curto prazo, mas é receita certa para estagnação ou mesmo crise em um futuro não muito distante.



