
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu pelo corte mínimo na taxa Selic, de 0,25 ponto porcentual, para 14,75% ao ano, em sua reunião encerrada na quarta-feira. O mercado financeiro dava como certo um corte de meio ponto, até que estourou a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, com todas as suas consequências econômicas sentidas mundialmente, especialmente com a disparada do preço do petróleo. Assim que o conflito começou, ficou evidente que já não havia condições para a redução inicialmente prevista. Assim, o corte de 0,25 ponto apareceu como o afrouxamento possível – embora uma decisão que mantivesse os juros em 15% ao ano não fosse de todo absurda; foi o que fez, por exemplo, o Fed, o banco central norte-americano, que manteve seus juros na faixa de 3,5% a 3,75%, apesar das reclamações de Donald Trump.
Em sua linguagem habitualmente polida, o Copom afirma que o “ambiente externo tornou-se mais incerto, em função do acirramento de conflitos geopolíticos no Oriente Médio, com reflexos nas condições financeiras globais”, um cenário que “exige cautela” devido a “efeitos sobre a cadeia de suprimentos global e os preços de commodities que afetam direta e indiretamente a inflação no Brasil”. Petróleo em alta significa energia e combustíveis mais caros, o que por sua vez encarece, em maior ou menor grau, inúmeros outros produtos e serviços, especialmente os que dependam de transporte terrestre para sua distribuição, além de outros itens, como passagens aéreas. O resultado é um repique da inflação, que a política contracionista do BC havia conseguido ao menos trazer para dentro da banda de tolerância da meta para o IPCA.
Se os juros estão altos no Brasil, não é por causa dos “tiros que o Trump deu no Irã”, mas por causa da bomba atômica fiscal que Lula armou para as contas públicas brasileiras
Ninguém sabe, no entanto, quanto tempo a guerra durará, nem se os Estados Unidos e Israel conseguirão seus objetivos (a bem da verdade, não há muita clareza nem mesmo sobre quais seriam esses objetivos, que variam da aniquilação da capacidade nuclear iraniana a uma mudança de regime); tampouco há como prever se e quando os norte-americanos e seus aliados conseguirão liberar a passagem de petroleiros pelo Estreito de Ormuz, o que já aliviaria bastante a pressão sobre os preços do petróleo. Neste ambiente de incerteza total, o Copom optou pelo corte mínimo em vez da manutenção da Selic, afirmando que “o período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista propiciou evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica”, evidenciada pelo PIB zerado do segundo semestre de 2025.
De forma prudente, desta vez o Copom escolheu não antecipar nada a respeito do que pode decidir na próxima reunião, no fim de abril. Limitou-se a dizer que é necessário “serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo”. De fato, não há como prever nada nas atuais circunstâncias, pois não sabemos se estamos diante de um choque temporário ou se a guerra, tenha que desfecho tiver, deixará alguma marca permanente, por exemplo com um novo patamar para os preços internacionais do petróleo.
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Nisso tudo, só uma coisa é certa: se os juros estão altos no Brasil, não é por causa dos “tiros que o Trump deu no Irã”, mas por causa da bomba atômica fiscal que Lula armou para as contas públicas brasileiras. Sua gastança sem limites tem resultado em déficit público (para o qual os R$ 30 bilhões de seu pacote para segurar o preço do diesel contribuirão) e disparada da dívida pública como porcentagem do PIB, indicadores que resultam em “expectativas desancoradas” e “projeções de inflação elevadas”, dois dos principais fatores que provocam a elevação dos juros. O Copom “segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros” e, se Lula pisar no acelerador do gasto público em ano eleitoral, nem uma paz rápida no Oriente Médio será capaz de jogar a Selic para baixo.







