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Editorial

Trump e os próximos passos da guerra contra o Irã

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Donald Trump deu 48 horas para o Irã desbloquear o Estreito de Ormuz, mas depois desistiu de realizar os ataques prometidos. (Foto: ChatGPT sobre foto de Graeme Sloan/EFE/EPA/Pool)

No sábado, o presidente norte-americano, Donald Trump, escreveu que, se o Irã não reabrisse totalmente o Estreito de Ormuz em 48 horas, “os Estados Unidos irão atacar e aniquilar suas [do Irã] várias usinas de energia, começando pela maior delas”. O prazo passou e o estreito continua bloqueado pelos iranianos, que controlam quem pode transitar por ele, mas na manhã de segunda-feira Trump anunciou que suspenderia por cinco dias os ataques à infraestrutura energética do Irã após “conversas muito boas e produtivas” com Teerã – o que o regime iraniano nega enfaticamente. Recuo ou estratégia?

Sabe-se que, em resposta ao ultimato de Trump, o Irã havia prometido fechar totalmente a passagem pelo estreito e responder na mesma moeda, atacando instalações de energia de países árabes aliados norte-americanos, o que agravaria ainda mais o que já se pode considerar uma crise energética. Se o presidente norte-americano fez os cálculos e achou que os custos de cumprir a ameaça seriam muito maiores que os benefícios, pode-se afirmar que foi prudente ao evitar uma ação que poderia ter consequências sérias. A decisão, no entanto, tem os seus ônus, pois cada promessa não cumprida reduz o poder de dissuasão dos Estados Unidos, tornando mais difícil acreditar que Trump de fato fará aquilo que ameaça fazer. É o que tem ocorrido na guerra entre Rússia e Ucrânia: em várias ocasiões Trump prometeu sanções severas à Rússia caso não houvesse um cessar-fogo, mas Vladimir Putin seguiu adiante e nem por isso acabou punido da forma anunciada pelo norte-americano.

Enquanto o Estreito de Ormuz seguir bloqueado, é impossível afirmar que o Irã foi vencido

O grande problema na atual guerra é que, assim como ocorre na Venezuela, não se sabe o que exatamente os Estados Unidos pretendem, porque as manifestações públicas do governo assumem direções distintas a cada dia. O fim do programa nuclear iraniano é um objetivo razoável: os aiatolás estavam próximos de enriquecer urânio nos níveis necessários para uma bomba, e estariam mais propensos a usá-la em comparação com outras potências nucleares que temem a “destruição mútua assegurada”. Mas é este o objetivo real? Há outros? Enfraquecer militarmente o Irã? Acabar com o financiamento ao terrorismo do Hamas e do Hezbollah? Derrubar de vez o regime dos aiatolás e substituí-lo por outra coisa? E quanto a Israel e os aliados árabes dos Estados Unidos, os que sofrem mais diretamente as consequências da guerra: os seus objetivos serão os mesmos dos norte-americanos?

Clareza quanto aos objetivos evitaria sinais contraditórios. Na última sexta-feira, por exemplo, Trump chegou a dizer que a vitória já tinha sido atingida, afirmando que havia destruído a Marinha, a Força Aérea e os mísseis iranianos – que, no entanto, continuam a ser lançados contra Israel. Nesta terça-feira, no entanto, autoridades norte-americanas confirmaram planos para enviar de 3 mil a 4 mil militares de uma divisão aerotransportadas ao Oriente Médio. De fato, não há vitória possível com o Estreito de Ormuz bloqueado, e superar este impasse, seja pela negociação ou pelo uso da força, se necessário, é tarefa que cabe primordialmente aos Estados Unidos. Na sexta-feira, Trump afirmou que “o Estreito de Ormuz terá de ser guardado e policiado, conforme necessário, por outras nações que o utilizam – os EUA não!”. O ataque, no entanto, foi iniciativa dos norte-americanos, que deveriam ter previsto o cenário em que os aiatolás responderiam travando o fluxo de petróleo no Golfo Pérsico, e preparado uma resposta. Jogar essa responsabilidade sobre os ombros de outros países, agora, só serviria para fragilizar a aliança entre norte-americanos e europeus.

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Na Venezuela, a ditadura chavista aceitou fazer algumas concessões a Trump, recebendo em troca o reconhecimento da ditadora interina Delcy Rodríguez. O Irã, no entanto, é diferente: sua liderança não teme a morte – pelo contrário, glorifica o que considera um “martírio” no enfrentamento ao “Grande Satã” – e tem no Estreito de Ormuz uma ferramenta eficaz de retaliação. Há quem considere a postura de Trump como uma estratégia para arrancar algo da teocracia islâmica em Teerã, mas a experiência recente e passada mostra que a ambiguidade e o vaivém são prejudiciais: enfraquecem a posição norte-americana diante do inimigo, além de confundir e afastar aliados. Nada disso tornará a região mais segura; no máximo, conseguirá uma simples trégua que, no médio e longo prazo, aumentará a instabilidade no Oriente Médio.

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