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Editorial

Um reconhecimento imoral

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O secretário do Interior dos Estados Unidos, Doug Burgum, e a ditadora venezuelana Delcy Rodríguez, durante encontro em Caracas em 4 de março. (Foto: Miguel Gutiérrez/EFE)

Os democratas venezuelanos e todos os que esperam pelo fim da tirania bolivariana sofreram um revés importante nos últimos dias, com o reconhecimento formal, por parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, do regime liderado pela ditadora Delcy Rodríguez, substituta de Nicolás Maduro, capturado pelos norte-americanos em janeiro. “Tenho o prazer de anunciar que, nesta semana, reconhecemos formalmente o governo venezuelano. Na verdade, o reconhecemos legalmente”, afirmou Trump no sábado, ao abrir um encontro com governantes latino-americanos para tratar do programa “Escudo das Américas”. No mesmo dia, Rodríguez agradeceu a Trump pelo reconhecimento em uma publicação na rede social X.

Os Estados Unidos não reconheciam um governante bolivariano na Venezuela desde 2018, quando Nicolás Maduro fraudou sua primeira reeleição, em um resultado que não foi aceito por praticamente todas as democracias ocidentais. Em 2019, o então presidente do Legislativo venezuelano, Juan Guaidó, se proclamou presidente interino e Trump, então no seu primeiro mandato, o reconheceu como líder legítimo da Venezuela; Joe Biden manteve essa decisão de 2021 até 2023, quando os próprios democratas venezuelanos decidiram dissolver o governo interino. Em 2024, Maduro fraudou ainda mais escancaradamente sua segunda reeleição; os EUA, ainda liderados por Biden, não reconheceram o resultado oficial e consideraram vencedor o candidato oposicionista, Edmundo González Urrutia.

Ao reconhecer formalmente Delcy Rodríguez, a vice na chapa encabeçada por Maduro, Trump endossou a farsa eleitoral

Com a declaração de Trump, isso mudou. Mas não mudou o fato de que González foi, de fato, o vencedor daquele pleito. A oposição reuniu boletins de urna em número suficiente para comprovar a vitória de seu candidato. A fraude na totalização dos votos foi tão escandalosa que mesmo um grande camarada de Maduro, o brasileiro Lula, hesitou em reconhecer o aliado como vencedor, insistindo em uma impossível apresentação de boletins por parte da autoridade eleitoral chavista para só então aceitar o resultado. Claro, a presença da embaixadora brasileira à “posse” de Maduro, no início de 2025, valeu como reconhecimento tácito, mas de certa forma o passo que Trump dá agora é algo que nem mesmo Lula ousou fazer. Ao reconhecer formalmente Delcy Rodríguez, a vice na chapa encabeçada por Maduro, o presidente dos Estados Unidos endossou a farsa eleitoral.

Pode-se até aceitar uma postura pragmática, de quem, reconhecendo ser impossível um retorno súbito da democracia à Venezuela, dada a contaminação generalizada de setores como as Forças Armadas e o Judiciário, aceita trabalhar com um governo que considera ilegítimo, pressionando-o a uma abertura gradual. Esse roteiro passaria pela libertação de todos os presos políticos e uma anistia sem condicionais, tendo em vista uma transição para o governo legítimo – no caso, com a posse de González – ou, na pior das hipóteses, a preparação do terreno para novas eleições verdadeiramente limpas, sem vedações arbitrárias a candidatos da oposição ao chavismo. Os Estados Unidos certamente teriam a capacidade de “empurrar” a Venezuela nessa direção. E, por algum tempo, pareceu que de fato o faria. O reconhecimento, no entanto, altera essa lógica, e já não se sabe até que ponto devolver a democracia à Venezuela faz parte dos planos norte-americanos para o país.

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A mensagem nada positiva deste reconhecimento é a de que o mundo, na visão de Trump, não se divide entre democracias e ditaduras, mas entre governantes dóceis e resistentes. Tanto Maduro quanto Rodríguez são ditadores e compartilham da mesma ideologia nefasta; mas Rodríguez aceita fazer o jogo de Trump (ainda que por puro instinto de autopreservação) e entregar o que ele pede – especialmente a possibilidade de explorar o petróleo local –, e por isso ganha o presente do reconhecimento formal. Uma imoralidade que deixará abandonados os venezuelanos sedentos por democracia, e que continuarão sofrendo sob uma ditadura que, agora, pode exibir em sua defesa o reconhecimento da maior potência global.

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