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Editorial 1

Era das megaempresas

Durante toda a metade do século passado, um dos inimigos preferidos de economistas e políticos de esquerda eram as empresas multinacionais. Os críticos diziam que, ao manterem seu centro de decisão no exterior, as multinacionais colocavam o mercado brasileiro sob controle estrangeiro, o que seria, para eles, um risco para a segurança nacional e para a soberania do povo brasileiro. Por ironia do destino, membros da esquerda latino-americana no Paraguai, na Bolívia, no Equador e na Venezuela estão acusando o Brasil de representar um perigo imperialista, entre outras razões porque grandes corporações brasileiras estão estendendo suas atividades nesses países e em outros mais. Essa era a acusação que a esquerda brasileira sempre gostou de fazer contra os Estados Unidos.

A fusão da Sadia com a Perdigão, criando a Brasil Foods, surge como uma das maiores empresas do mundo na produção e exportação de alimentos industrializados e será mais um motivo para aqueles que acusam o Brasil de dominação na América do Sul. Na prática, o que está por trás dessa fusão é a acelerada mudança por que passa a economia mundial e as necessidades estratégicas das empresas, e não qualquer intenção imperialista deliberada. A ONU produziu um relatório no qual informa que a população da Terra pode chegar a 9,4 bilhões de habitantes no ano 2050, e um dos grandes desafios será produzir alimentos para tanta gente, desafio que poderá ser maior caso haja a desejável melhoria na distribuição da renda entre os habitantes do mundo, que fará o consumo ser aumentado.

O ano 2050 chegará em apenas quatro décadas e, caso a população realmente atinja 9,4 bilhões, a existência de novas megaempresas com atuação multinacional, sobretudo no setor de alimentos, será consequência inevitável. Nesse sentido, a criação da Brasil Foods poderá revelar-se uma grande jogada estratégica para atender à imensa demanda mundial por comida. Assim, a fusão que criou a nova megaempresa pode ser vista em razão das condições financeiras e dos planos estratégicos de cada uma delas, e tudo indica que a fusão será um passo importante para a conquista de grandes mercados internacionais. Quanto aos efeitos internos, caberá ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica zelar para que a concentração de mercado não chegue ao ponto de prejudicar os interesses dos consumidores.

Alguns vizinhos latino-americanos poderão continuar acusando o Brasil de agir como uma nação imperialista, ao criar grandes corporações multinacionais brasileiras. Mas a realidade mundial mostra que esse é um caminho sem volta. Daqui a duas ou três décadas talvez eles tenham de fazer o mesmo que fizeram os críticos brasileiros, ou seja, entender que as corporações multinacionais não são nem melhores nem piores do que as empresas somente nacionais, mas que elas resultam do crescimento populacional do mundo e das profundas mudanças por que passam a economia global e o comércio internacional. Pior será se o Brasil e os vizinhos ficarem de fora dessa era de transformações, o que contribuiria para perpetuar a pobreza e o atraso latino-americanos.

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