
Na terça-feira, dia 10, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, confirmou que deixará a pasta nos próximos dias. A pedido do presidente Lula, Haddad disputará o governo de São Paulo pelo PT, ainda que preferisse concorrer ao Senado ou coordenar a campanha de reeleição de Lula. A tarefa é ingrata: o atual governador, Tarcísio de Freitas – que derrotou Haddad em 2022 –, é favorito a permanecer no cargo. E, se os petistas querem destacar o lado positivo do quase ex-ministro, em vez de bater em um governador popular, não terão muito o que dizer sobre a passagem de Haddad pela Fazenda, a não ser que poderia ter sido bem pior.
Se Haddad foi descrito, ao longo dos três anos de governo Lula 3, como uma das vozes mais sensatas da equipe econômica – ao lado de uma apagada Simone Tebet – e do entorno do presidente da República, é apenas porque, se dependesse apenas do próprio Lula e de peixes graúdos petistas como os ministros Rui Costa e Gleisi Hoffmann, o Brasil já teria caído em um abismo fiscal muito mais profundo e há muito mais tempo. O ministro da Fazenda não é um entusiasta nem da liberdade econômica, nem da responsabilidade fiscal, tanto que a eficácia das medidas propostas e defendidas por ele se mostra em indicadores como a expansão descontrolada da dívida pública como proporção do PIB – algo bastante previsível, com um arcabouço fiscal que previa aumento real do gasto governamental independentemente do desempenho da economia, e ainda assim foi chamado de “austericídio” por Gleisi, então presidente do PT.
Apenas em termos relativos, e jamais em termos absolutos, se pode dizer que Haddad encerra sua passagem pela Fazenda como um bom ministro
Para fechar as contas, Haddad recorreu a sucessivos aumentos de impostos, a ponto de ter se tornado o assunto de inúmeros memes, que o chamavam, não sem razão, de “Taxxad”. Levantamento realizado em maio de 2025 mostrava que o governo havia instituído ou elevado impostos a um ritmo alucinante: um anúncio a cada 37 dias, em média. Nem todos eles se concretizaram, ou ao menos não da forma originalmente pretendida, é verdade: sem articulação com o Congresso, Haddad fracassou nas tentativas de aumentar o IOF e de reonerar a folha de trabalho, acumulando derrotas no Legislativo – só a mão amiga do Supremo Tribunal Federal foi capaz de socorrer o ministro, ajudando-o a reduzir os déficits primários que marcaram os três primeiros anos da atual gestão.
Mais recentemente, seja porque se cansou de dar murros em ponta de faca (murros que ele já não dava com muita força, de qualquer maneira), seja porque resolveu deixar as aparências de lado, Haddad se jogou de vez no terraplanismo econômico e fiscal. Afirmou que os avisos sobre a crise fiscal são um “delírio que eu preciso entender do ponto de vista psicológico”; disse estar “louco para ver uma ata do Banco Central dizendo que eu estou fazendo um esforço fiscal relevante”; e chamou seu arcabouço de “a legislação mais avançada que já tivemos”.
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Sim, Haddad deixa a Fazenda entregando desemprego baixo e um crescimento anual de 3% na média, mas são índices conquistados a um preço altíssimo: a estratégia de superaquecer a economia pelo lado do consumo pressionou a inflação, o que por sua vez levou o Banco Central a elevar os juros, com uma política monetária contracionista que se contrapusesse à política fiscal expansionista, para não deixar a inflação explodir de vez. O Brasil viu esse filme nos anos que antecederam a recessão lulodilmista, e a repetição da estratégia levará ao mesmo resultado se não houver uma mudança de rumos drástica em um futuro próximo. Assim como Guido Mantega criou a crise que estourou no colo de Joaquim Levy, Haddad deixa uma bomba-relógio armada para seu sucessor – e aqui não faz muito sentido discutir quem é a mente por trás do mecanismo explosivo, se o ministro ou seu chefe.
Apenas em termos relativos, e jamais em termos absolutos, se pode dizer que Haddad encerra sua passagem pela Fazenda como um bom ministro. E, por “relativos”, entenda-se apenas na comparação com outros nomes bem piores que Lula poderia ter indicado para a pasta, pois Haddad não se sai bem nem sequer na comparação com vários de seus antecessores que ocuparam o ministério neste século. Um ministro no mínimo complacente com a gastança desenfreada, incapaz de conter a explosão da dívida e os déficits primários, e empenhado em fechar rombos apenas pela via do aumento da arrecadação não tem como sair bem avaliado.







