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Editorial

Inadimplência em alta aponta para problemas na economia real

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Inadimplência vem batendo recordes históricos no início de 2026. (Foto: ChatGPT sobre foto de Andrew Khoroshavin/Pixabay)

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O Brasil tinha, em fevereiro, 73,7 milhões de pessoas inadimplentes, segundo dados do Indicador de Inadimplência da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, divulgados dias atrás. Número da Serasa Experian é ainda mais grave: 81,2 milhões de inadimplentes em janeiro. Considerando que o Brasil tem 213 milhões de habitantes, dos quais 106 milhões são pessoas em condições de trabalhar, os recordes históricos de inadimplência são preocupantes e revelam fragilidades da situação econômica do país. Quando um país está entrando em recessão econômica, o aumento no número de pessoas que ficam inadimplentes, principalmente os que atrasam o pagamento de suas dívidas por mais de 90 dias, é uma das primeiras consequências.

É o caso de perguntar se os dados de inadimplência não estão mostrando que algo não vai bem com o desempenho da produção nacional, e se de fato a economia começou a desacelerar. Até o momento, as estatísticas sobre o Produto Interno Bruto (PIB) nacional não captaram uma retração econômica, embora o PIB praticamente zerado no segundo semestre de 2025 ligue um sinal de alerta. Há, no entanto, quem acredite que a crise mundial atual, que fez o preço do barril de petróleo sair da faixa dos US$ 70 e superar os US$ 110 com a guerra no Oriente Médio, vai forçar os índices de inflação para cima e frear o crescimento do PIB em várias partes do mundo, inclusive o Brasil.

Quando um país está entrando em recessão econômica, o aumento na inadimplência é uma das primeiras consequências

As duas principais causas da inadimplência das pessoas são a inflação e o desemprego. Assim, a elevação do número de inadimplentes é um fenômeno que recomenda às autoridades direcionarem sua atenção para a tendência dos índices de inflação diante da elevação dos preços do petróleo e de eventuais sinais sobre um possível aumento na taxa de desemprego, ainda que ela esteja hoje em mínimas históricas. Nesse cenário, um fator importante que age como inibidor adicional de investimentos e produção – portanto, queda na geração de empregos – é a taxa de juros, especialmente combinada com o aumento de custos nas empresas por efeito do aumento dos combustíveis derivados do petróleo. Se tudo isso ocorre simultaneamente, o efeito sobre o PIB é a redução no crescimento e o flerte com a recessão, ainda que leve.

Em relação ao efeito aumentador da inadimplência provocado pela inflação, sua ocorrência ocorre porque quando os preços sobem, as pessoas gastam mais em valores monetários com a compra de bens e serviços básicos essenciais à vida, a exemplo dos gastos com alimentos, aluguel, água, energia, transporte, escola e assistência à saúde. Juntando a isso o fato de que os salários e outras rendas pessoais não sobem junto com a inflação, boa parte das pessoas se vê na condição de atrasar prestações vencidas. Outra causa está nos juros altos. Mesmo que seja possível renegociar dívidas e tomar empréstimos novos à medida que se vai amortizando dívidas vencidas, juros altos encarecem as dívidas e contribuem para diminuir o valor líquido de novos empréstimos, fazendo que seja agravado o atraso no pagamento de boletos vencidos.

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Um problema adicional que agravou a percepção da população de que a inflação pode ser maior que a mostrada nos índices publicados pelo governo foi o conflito entre o presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Márcio Pochmann, e parte de seus técnicos e diretores, com alguns pedindo demissão sob a acusação de que Pochmann estaria inclinado a alterar metodologias de cálculo de índices como PIB e inflação. Em um país no qual a taxa de confiança no governo e nos políticos já é bastante baixa, uma crise como a do IBGE reforça a crença de que a inflação real poderia ser maior que a oficial.

Os reajustes salariais e de outras rendas do trabalho são feitos tendo como referência a inflação oficial medida pelo IPCA. Se esse índice for, de alguma forma, jogado para baixo a fim de favorecer a imagem do governo, os reajustes de salários e rendas pessoais serão insuficientes para equilibrar os orçamentos dos trabalhadores, contribuindo assim com aumento da inadimplência de dívidas tomadas anteriormente. Um ponto a ser esclarecido é quanto à finalidade das dívidas contraídas pelas pessoas físicas. Se uma dívida resultar de investimento, como a compra da casa própria, a família terá um ativo e poderá deixar de gastar com aluguel; logo, essa é uma situação menos problemática do que quando a dívida é feita para cobrir déficit de consumo corrente em relação à renda da família.

De qualquer forma, o exagerado número de inadimplentes em relação ao total da população em condições de trabalhar é um sinal de que o país pode estar tendo problemas com o cálculo da inflação real, com a taxa de desemprego e com a taxa de crescimento do PIB. Eis aí um sinal de alerta que recomenda às autoridades o exame das políticas públicas pertinentes. Sem isso, o governo estará se omitindo de forma irresponsável.

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