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Dólar
Dólar vem se valorizando frente ao real nos últimos pregões.| Foto: Fernanda Carvalho/Fotos Públicas

Nos últimos dias, tanto Brasil quanto Estados Unidos deram sua resposta a uma crise mundial de inflação, que insiste em não arrefecer. Enquanto o Fed elevou sua taxa básica em meio ponto porcentual – o maior aumento desde 2000 – em uma tentativa de conter a maior onda de aumento de preços dos últimos 40 anos nos Estados Unidos, o Copom realizou a décima elevação consecutiva na taxa Selic, que agora é de 12,75%, a maior desde 2017. E o comunicado emitido ao fim da reunião deixa claro que o aperto monetário deve continuar, ao menos até o fim deste primeiro semestre.

As maiores pressões vêm do exterior, de acordo com o texto. Os sucessivos lockdowns impostos pela China em grandes centros urbanos, como Xangai, estão mais uma vez causando estrago nas cadeias mundiais de produção, lembrando as primeiras semanas da pandemia de Covid-19, mais de dois anos atrás. Enquanto isso, a continuação da agressão russa contra a Ucrânia continua a desorganizar o mercado de commodities, especialmente agrícolas e de energia. Em um cenário de tamanho caos, o Brasil não consegue se beneficiar nem com a redução da bandeira tarifária de energia elétrica, que passou da mais cara (“escassez hídrica”) para a mais barata (verde), nem com a inflação norte-americana, que, como explicamos ontem neste espaço, tenderia a causar uma desvalorização maior do dólar, barateando os produtos importados pelo Brasil. O IPCA de abril será divulgado no dia 11, mas sua “prévia”, o IPCA-15, acelerou para 1,73% na segunda metade de março e primeira quinzena de abril – o maior índice para o período desde 1995.

Em um cenário de tamanho caos, o Brasil não consegue se beneficiar nem com a redução da bandeira tarifária de energia elétrica, que passou da mais cara para a mais barata, nem com a inflação norte-americana

Tanto o Fed quanto o Copom consideram a possibilidade (no caso brasileiro, a certeza) de novas elevações de juros. No entanto, as futuras elevações não devem ser mais intensas que as dos últimos dias, como afirmaram Jerome Powell, presidente do Fed, e o comunicado do Copom, segundo o qual “para a próxima reunião, o Comitê antevê como provável uma extensão do ciclo com um ajuste de menor magnitude”. No entanto, os brasileiros precisarão observar com cautela cada passo norte-americano, pois as elevações de juros nos Estados Unidos costumam provocar a chamada “fuga para a segurança”, desvalorizando as moedas de outros países, especialmente emergentes. Caso o Brasil não acompanhe a intensidade do aperto do Fed, o dólar pode ter novos ciclos de alta forte, piorando ainda mais as perspectivas para a inflação brasileira.

O comunicado do Copom, no entanto, lembra que é precipitado culpar apenas o cenário externo pela deterioração do cenário inflacionário, pois “a incerteza sobre o futuro do arcabouço fiscal do país” segue listada entre os “fatores de risco”. O governo praticamente abandonou, ao menos para este ano, os esforços para aprovar a reforma administrativa, enquanto promete elevar gastos com o funcionalismo por meio de um reajuste de 5%. O teto de gastos continua sendo alvo de críticas, desde as moderadas, que pedem uma revisão do mecanismo, às mais incisivas, que clamam por sua abolição. E, a depender do projeto que sair vencedor nas eleições presidenciais de outubro, qualquer esperança de ajuste fiscal pode ser abandonada.

Mesmo reconhecendo que pode não haver muito mais a se fazer em um cenário como o atual, é impossível não lamentar o efeito que os juros ainda mais altos terão sobre a economia brasileira, prejudicando o crédito e o consumo quando as perspectivas de crescimento do PIB em 2022 já são pouco animadoras, permanecendo abaixo da casa de 1%. Com as instituições do mercado financeiro projetando um IPCA de 8% ao fim deste ano, novamente muito acima da meta, a escolha entre controlar o dragão e sacrificar o crescimento é, infelizmente, quase inevitável.

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