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editorial

Leituras aos pedaços

Nova pesquisa põe para baixo cenário do consumo do livro no Brasil, mas derrotismo não ajuda o debate

  • PorGazeta do Povo
  • 22/08/2015 00:01

A nova edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, ainda está a caminho – a previsão é para 2016. Mas um estudo sobre práticas culturais recém-publicado pela Federação do Comércio do Rio de Janeiro (O hábito de lazer cultural do brasileiro) tem se prestado a adiantar o expediente. Foram ouvidos moradores de 70 cidades, de nove regiões metropolitanas. O resultado é pouco animador. Arte e literatura, a rigor, não estão na lista de prioridades dos brasileiros: 55% dos entrevistados não tiveram vida cultural em 2014 . Mesma disfunção se verifica na leitura de livros: de um ano para outro, passou de 35% para 30% o número de pessoas que não leram nenhum livro no ano.

A edição de 2012 da Retratos tinha verificado tendência de queda na leitura e, inclusive, menos gente maquiando os dados. Em aferições relacionadas à cultura, os leitores costumam optar pelo autoengano, dizendo fazer mais do que fazem. Pelo andar da carruagem, não mais – dados do Instituto Pró-Livro mostram que 50% da população não lê. Dentre os não leitores, mais de 78% consideram a leitura uma atividade enfadonha. O rosário de perdas parece não ter fim. Mas é preciso decantar essas estatísticas.

Os índices de leitura variam de acordo com as regiões, o que nos leva a crer que há estados e municípios que erram menos a mão do que outros. A favor: o desempenho de uma cidade como Passo Fundo, próximo dos franceses. Contra: a Jornada Literária de Passo Fundo, bienal, teve sua edição deste ano cancelada por falta de dinheiro. O país segue atrapalhado com seu eterno ser ou não ser.

Não há por que acreditar que a maioria dos brasileiros não teve uma experiência gratificante da leitura

Esses exemplos, ou maus exemplos, contudo, não deveriam imobilizar as políticas de leitura. Pertinente é entender em que situações a sociedade leitora vinga, de modo a partir do positivo para o negativo, criando a partir daí um projeto possível. O derrotismo e o complexo de inferioridade são péssimos conselheiros, mas teimamos em recorrer a eles. Entre nós, valorizar o fracasso pode, para espanto, funcionar como um fetiche. Muitos dos que se sentem culturalmente diferenciados não raro se nutrem da ideia de serem um ponto fora da curva, “moradores do país errado”. Essa esquizofrenia social é tamanha que já ocupou o gênio de Antonio Candido. Ora, há muito a se fazer na nação em que apenas três a cada dez leem. E há de se perguntar por que a sociedade leitora não consegue se reproduzir. Talvez porque não se relacione com os demais.

Outro problema é se centrar demais na quantificação de livros. Os próprios franceses já experimentaram trocar a contabilidade pela antropologia. Tempos atrás, perguntaram qual era o livro afetivo dos franceses, em vez de querer saber o número de livros que tinham lido. O resultado foi bem mais produtivo. Não há por que acreditar que a maioria dos brasileiros não teve uma experiência gratificante da leitura – a ponto de não querer saber mais de praticá-la. Mais lógico é buscar meios para promover esses reencontros com a palavra. Dão trabalho – no Brasil e na França.

Sim, esses tempos fraturados em que vivemos são refratários à leitura continuada, comportada, sequente ou que nome queiramos dar. A leitura do livro inteiro como medida da boa leitura é um conceito em conflito, posto que se lê muito, lê-se mais do que em outros tempos, mas de forma fragmentada. Desconsiderar essa forma – que pode não ser a ideal – é fechar os olhos para os campos de possibilidades de leitura que escondem. Dizer a quem lê aos pedaços que suas práticas não valem e nem contam é não só autoritarismo como erro estratégico. Daí valer perguntar se os 70% da pesquisa da Fecomércio devem ser levados a ferro e a fogo. A própria Retratos, de 2012, reconhece a leitura “pela metade” – e faz bem: na ocasião, 49% dos que leem disseram estar lendo mais. Não seria um sinal de avanço?

Observar nossas práticas de leitura pode ser um bom começo. Os religiosos que leem a Bíblia o fazem aos pedaços, obedecendo à natureza da própria piedade. Ponha-se na conta o livro didático, lido por 33,3 milhões de brasileiros, de acordo com o Pró-Livro. Não se lê um volume desses de cabo a rabo. Nas universidades – onde se pratica a leitura de capítulos diferentes de várias obras de vários autores – também se lê de forma fragmentada. Como se pode ver, a questão prima pela complexidade – e ainda nem se falou da leitura na internet, outro oceano a ser cruzado.

Talvez o que nos falte seja ambição para enfrentar a natureza da nossa leitura; as condicionantes do consumo de informação literária e técnica num país de escolaridade difícil; o silêncio das classes mais escolarizadas frente à questão da leitura. Em paralelo a essas discussões, é claro, tem de se colocar a importância de uma leitura mais sólida, pela qual o leitor siga um autor de forma adulta e completa, do começo ao fim. Ler o livro todo ainda é um imperativo. Não lê-lo é um dos sinais do estágio da conversa em que estamos. Resumo da ópera: leitura tem de ser política tão prestigiada quanto todas as outras. Diriam que é sonhar demais. Mas é ou sonhar ou chorar os tais 70%.

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