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Editorial

A propaganda lulista no Sambódromo

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Trecho do desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, em homenagem ao presidente Lula. (Foto: Antônio Lacerda/EFE)

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Quem esteve no Sambódromo do Rio de Janeiro, ou assistiu pela televisão ou pela internet ao primeiro dia do desfile das escolas de samba do Grupo Especial, teve a oportunidade de conferir uma peça de propaganda destinada a exaltar um pré-candidato à presidência da República nas eleições deste ano: o presidente Lula, tema da homenagem prestada pela Acadêmicos de Niterói, recém-promovida à elite do carnaval carioca. Nos dias que antecederam o desfile, montado e executado com a ajuda de recursos públicos (mesmo que todas as outras escolas tenham recebido quantia semelhante, ao menos no que diz respeito ao governo federal), ações no TSE tentaram, sem sucesso, impedir a homenagem; depois do evento, a oposição já promete novas ações.

O desfile da Acadêmicos de Niterói, com o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, teve de tudo, inclusive provocações a Jair Bolsonaro, retratado como o palhaço Bozo; a reciclagem da mentira sobre o “golpe” que tirou Dilma Rousseff da Presidência, com Michel Temer aparecendo como um ladrão de faixa presidencial; e o preconceito contra evangélicos e conservadores, ridicularizados em latas de conserva. Mas a essência da apresentação de domingo à noite foi a glorificação da biografia de Lula e o aquecimento para a campanha eleitoral deste ano.

Se fosse possível confiar que o TSE usaria com Lula os mesmos critérios usados com Jair Bolsonaro, a inelegibilidade do petista já poderia ser dada como certa

A letra do samba tinha menções a um jingle clássico de campanha do petista (“olê, olê, olê, olá, Lula! Lula!”), a assuntos que farão parte da campanha eleitoral – como a “soberania” contra “tarifas e sanções” e a “comida na mesa do trabalhador” – e até mesmo ao número de urna do PT, ou seja, de Lula (“treze dias, treze noites”). Alas traziam a estrela símbolo do partido. O mestre da bateria e um dos intérpretes do samba-enredo “fizeram o L” diante das câmeras. Em um dado momento, o próprio Lula desceu até a Marquês de Sapucaí para confraternizar com integrantes da escola de samba, acompanhado pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes.

Por muito menos que isso – uma reunião com embaixadores, que nem sequer votam –, Jair Bolsonaro foi tornado inelegível por “abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação”. Se fosse possível confiar que o Tribunal Superior Eleitoral usaria os mesmos critérios para avaliar o desfile carnavalesco deste domingo, presenciado ao vivo por dezenas de milhares de pessoas e cuja transmissão foi assistida por milhões de brasileiros, a inelegibilidade de Lula já poderia ser dada como certa. Mas a corte eleitoral já mostrou que não é confiável.

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Basta observar, por exemplo, a atitude da ministra Cármen Lúcia: em 2026 ela votou pela permissão ao desfile argumentando que proibi-lo constituiria censura prévia. Quatro anos antes, no entanto, a mesma Cármen Lúcia votou pela censura prévia ao documentário Quem mandou matar Jair Bolsonaro?, da produtora Brasil Paralelo, ao qual nenhum dos ministros havia assistido – enquanto, no caso da escola de samba, vídeos com o samba-enredo pululavam na internet muito antes do desfile. Algumas situações, ao que tudo indica, são mais excepcionalíssimas que outras.

A bem da verdade, se houvesse chance real de o TSE considerar o desfile de domingo como propaganda antecipada e abuso de poder, talvez a oposição nem tentasse impedi-lo, seguindo o conselho “nunca interrompa seu inimigo quando ele estiver cometendo um erro”, atribuído a Napoleão Bonaparte; e talvez o próprio Lula, mesmo sendo um mitômano inveterado, recusasse a homenagem, com medo da inelegibilidade, e a Acadêmicos de Niterói precisasse achar um outro assunto para levar ao Sambódromo. É por isso que, apesar do alerta de André Mendonça, uma eventual condenação seria uma grande surpresa – por mais que os motivos estejam aí, para o país inteiro ver.

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