
Se depender do chanceler Mauro Vieira, as Forças Armadas já deveriam estar convocando nossos reservistas e os novos caças Gripen deveriam estar prontos para o combate – afinal, os Estados Unidos estão prestes a invadir o Brasil! Ao menos é o que se depreende de uma carta absurda enviada pelo ministro das Relações Exteriores ao deputado Evair Vieira de Melo (Republicanos-ES), que pedira ao Itamaraty uma explicação sobre as possíveis consequências da designação das facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelo governo norte-americano.
Segundo o Itamaraty, o fato de o governo norte-americano classificar as facções brasileiras como “organizações terroristas estrangeiras” (FTO, na sigla em inglês) traz consigo o “a possibilidade do uso da força militar dos Estados Unidos em território brasileiro” – uma hipótese que não foi levada a sério por nenhum analista ouvido pela Gazeta do Povo, e nem pelo Departamento de Estado dos EUA, que a chamou de “absurda”. “Os Estados Unidos estão tomando medidas decisivas, no âmbito de suas próprias competências soberanas, para combater os narcoterroristas. Essas gangues brasileiras agora atuam nos Estados Unidos, e vamos defender nosso povo contra elas”, disse a chancelaria norte-americana.
Itamaraty entra na campanha eleitoral fabricando uma ameaça de invasão dos Estados Unidos para que Lula possa posar de protetor da soberania nacional
Por mais que a diplomacia brasileira pretenda induzir, na população brasileira, algum tipo de paralelo com o caso venezuelano, em que os Estados Unidos capturaram o ditador Nicolás Maduro e o levaram para ser julgado nos EUA por associação com o narcotráfico, a situação brasileira é bastante diferente. A designação das facções brasileiras (que de fato já lavam dinheiro fora das fronteiras nacionais, agindo também nos Estados Unidos) como organizações terroristas serve para que o governo norte-americano possa usar certas ferramentas para combatê-las – é o caso das sanções recentemente aplicadas a pessoas e empresas acusadas de ligação com o PCC. A asfixia econômica das facções, inclusive no exterior, é um meio eficaz de enfraquecê-las e, quem sabe, dar alguma vantagem ao Estado brasileiro para que possa finalmente retomar os territórios dominados pelo crime organizado, especialmente nas áreas pobres de cidades grandes e na Amazônia.
Nada, portanto, de marines ou SEALs subindo os morros cariocas para prender traficantes, nem de porta-aviões na Baía de Guanabara bombardeando as favelas. Insinuar que os norte-americanos estejam planejando qualquer tipo de ação militar não autorizada em território brasileiro é recorrer à chamada falácia do “espantalho”, em que se inventa uma versão fictícia de um argumento, para se poder contestá-lo mais facilmente – afinal, que brasileiro aceitaria tranquilamente uma invasão estrangeira? Colocar um ataque norte-americano na lista de consequências plausíveis da designação de PCC e CV como organizações terroristas é uma tentativa de mostrar que o governo brasileiro teria razão ao se opor à decisão do governo dos EUA, decisão essa que tem o apoio da maioria dos brasileiros.
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Mas não é só isso: às vésperas de uma eleição que promete ser bastante disputada, tudo o que possa ajudar a retratar o presidente Lula como o grande protetor da soberania nacional e líder da resistência contra uma potência estrangeira interessada em prejudicar o Brasil será usado em favor do petista – mesmo que para isso seja preciso inventar uma ameaça militar. O petista já posou de grande negociador durante o primeiro “tarifaço” de Donald Trump, ainda que o recuo norte-americano tenha sido motivado pelo salto da inflação com o encarecimento dos itens importados, e não por mérito de Lula; não custaria nada à máquina de propaganda lulista colocar no presidente um uniforme camuflado e fazer dele o comandante-em-chefe capaz de manter longe daqui o exército mais poderoso do planeta – que esse exército nunca tivesse mesmo planejado qualquer visita ao Brasil seria mero detalhe.
O Itamaraty já havia se rebaixado globalmente ao substituir a neutralidade e a defesa pragmática dos interesses brasileiros pela atuação ideológica escancarada em favor de ditaduras amigas; agora, se rebaixa internamente ao entrar na campanha eleitoral fabricando uma ameaça estrangeira para que Lula possa surfar nela e se projetar como alguém comprometido com o interesse nacional. Enquanto isso, a verdadeira soberania continua a ser violada pelas facções, que expulsam o Estado de áreas vastas ou populosas, impondo o próprio regime de terror a cidadãos que o poder público tem a obrigação de proteger.



