Está afastada por ora a névoa da guerra que voltou a assombrar o mundo, meia geração após o fim da Guerra Fria, com o aceno do governo do Irã pela reabertura de negociações em torno do seu controvertido programa nuclear. Mas no início da semana o confronto apresentava uma escalada, após declarações incendiárias do presidente iraniano que, depois, revelou-se terem sido mal traduzidas , levando congressistas norte-americanos a responderem num tom duro que não excluía ação militar, para evitar que o governo dos aiatolás venha a deter armas nucleares.
Tudo começou por conta da eleição de um radical para a presidência, o sr. Mahmoud Ahmadinejad, quando parecia que a revolução iraniana estava se desmobilizando, ante o mandato de sucessivos líderes moderados em um condomínio de poder civil com os clérigos xiitas herdeiros do líder Khomeini, que nos anos 70 depôs a monarquia. Para isso contribuíram, entre outros fatores, reações às intervenções ocidentais no Afeganistão e no Iraque, para o combate ao terrorismo manifestado após os atentados de 2001.
O radicalismo dos xiitas do Irã cresceu de escala depois da intervenção no Iraque. O problema é que o Iraque de Saddam representava um elemento geopolítico de contenção dos radicais religiosos que assumiram o poder no Irã: na década de 1980 o governo de Bagdá chegou mesmo a lançar uma guerra contra os aiatolás de Teerã, que lhes desgastou a energia para a difusão da revolução fundamentalista. A contenda terminou empatada, ao preço de um milhão de mortos em ambos os lados, mas domou o regime iraniano por muitos anos.
Agora, após a remoção de Saddam Hussein no Iraque e desdobramentos da conjuntura internacional foram criadas condições para a vitória do radical Ahmadinejad, cujas declarações fazem lembrar o fanatismo de outras figuras ao longo da História. Ao crescer de intensidade, o problema iraniano tenderá a rebaixar para segundo plano os conflitos do Afeganistão e Iraque, e mesmo a controvérsia com o regime fechado da Coréia do Norte em torno da mesma questão: o risco de proliferação de armas nucleares em mãos de estados não confiáveis.
Os passos contra o Irã foram lançados em conferência preliminar realizada em Londres: convocação da junta diretora da Agência Internacional de Energia Atômica e, por recomendação desta, bloqueio através do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Mas enquanto senadores e o governo norte-americano se juntam à Grã-Bretanha para ameaçar com as sanções, a Rússia e China, potências representadas no Conselho de Segurança que mantêm relações próximas com o Irã, propõem esgotar a utilização de meios diplomáticos para convencer o regime de Teerã sobre a conveniência do retorno à normalidade.
O governo do Brasil reconhece ser essa a linha mais adequada, porque a comunidade internacional embora incomodada pelo comportamento inusitado daquele governo , deve lembrar a contribuição do Irã (como a Pérsia clássica) para o alvorecer da civilização.



