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O deputado federal Nikolas Ferreira está na etapa final de uma iniciativa ousada.. Na segunda-feira (19), ele iniciou uma caminhada de aproximadamente 240 quilômetros, partindo de Paracatu, no noroeste de Minas Gerais, rumo a Brasília. Nikolas e o grupo que o acompanha – formado por outros políticos e cidadãos que aderiram espontaneamente à manifestação – chegarão à capital neste domingo (25), onde ocorrerá um ato público na Praça do Cruzeiro. O evento, batizado de “Caminhada pela Justiça e Liberdade”, foi anunciado pelo parlamentar como forma de protesto pacífico contra as arbitrariedades no país. Nada mais oportuno.
A caminhada de Nikolas, gesto de forte simbolismo, aponta para algo essencial ao Brasil: a necessidade de colocar-se em movimento em defesa do que é justo, de agir licitamente, na medida das possibilidades de cada um, contra o cenário grotesco de corrosão do Estado de Direito e de desordem constitucional que se instalou no país. Muitos brasileiros – ao menos aqueles que já compreenderam a gravidade da situação, pois ainda há, infelizmente, quem não enxergue com clareza o que ocorre – sentem-se hoje impotentes, desorientados, sem saber como reagir.
Oxalá cada brasileiro se sinta igualmente estimulado a colocar-se em movimento, onde quer que esteja, da forma que lhe for possível, fazendo o que estiver ao seu alcance, sempre dentro da legalidade, para reverter o estado de exceção que se instalou no país
Ao longo dos últimos anos, a população tem sido relegada à margem das grandes discussões, sistematicamente ignorada e, em não poucos casos, silenciada à força, tendo de conviver com um ambiente de insegurança e opressão que avança até sobre direitos elementares, como a liberdade de expressão e de pensamento. Nesse contexto, até manifestações justas e pacíficas, individuais ou coletivas, passaram a ser tratadas como ofensas às instituições e até como crimes contra o Estado – algo impensável em uma democracia. Ainda assim – ou justamente por isso – é preciso insistir.
Não existe uma “bala de prata”, como bem observou Nikolas: nenhuma solução mágica será capaz de restaurar de imediato o Estado de Direito brasileiro. Muito ainda precisa ser feito, e toda mobilização firme, constante e corajosa, em diferentes esferas e por múltiplos meios, faz diferença. Ainda que pareça insignificante, cada gesto ou ação lícita em defesa da legalidade, do equilíbrio entre os poderes e das garantias constitucionais pesa na balança.
Quando Nikolas deu início à caminhada, foi alvo de chacotas e acusado de buscar autopromoção – ele deverá concorrer nas eleições deste ano. Na imprensa, a iniciativa foi ignorada por diversos veículos ou tratada com desdém, quando não criticada abertamente – seria legítimo questionar se a reação seria a mesma caso o deputado fosse filiado a algum partido de esquerda. Ainda que a mobilização possa render dividendos políticos, a causa defendida por Nikolas é justa e o meio escolhido para chamar atenção é plenamente lícito. Qualquer brasileiro tem o direito de ir e vir, de caminhar para onde desejar. E de manifestar-se pacificamente em defesa daquilo que considera correto.
Ainda assim, houve tentativas de impedir o avanço do deputado, como a dos petistas Lindbergh Farias e Rogério Correia, que protocolaram, na quarta-feira (21), um pedido junto à Polícia Rodoviária Federal (PRF) para barrar a continuidade da caminhada, alegando, de forma pouco convincente, suposta preocupação com a segurança dos participantes. Toda mobilização que expõe as arbitrariedades que proliferam no país incomoda aqueles que desejam preservá-las.
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O crescimento do apoio e da participação ao longo do percurso foi notório. No início, cerca de 40 pessoas seguiam pela BR-040; o grupo, porém, ampliou-se nos dias seguintes, alcançando centenas de participantes. Além da presença de outros políticos e lideranças, cidadãos comuns também se juntaram ao trajeto ou ofereceram apoio, distribuindo água, isotônicos e refeições gratuitamente aos manifestantes, fazendo o que estava ao seu alcance para colaborar.
Independentemente de qualquer resultado concreto que a mobilização de Nikolas venha a produzir, seu mérito é inequívoco. Além de chamar atenção para os abusos recorrentes do Judiciário e para as violações de direitos dos presos do 8 de janeiro, entre outros pontos, a iniciativa pode tornar-se um marco relevante. Como observou o colunista da Gazeta, Deltan Dallagnol, a marcha demonstra que ainda é possível ao povo ocupar o espaço público e protestar, apesar do medo.
Oxalá cada brasileiro se sinta igualmente estimulado a colocar-se em movimento, onde quer que esteja, da forma que lhe for possível, fazendo o que estiver ao seu alcance, sempre dentro da legalidade, para reverter o estado de exceção que se instalou no país.



