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Muito se diz que o centro das maiores cidades brasileiras está degradado. Lamenta-se o abandono e, rápido, os culpados são apontados, mais ou menos nessa ordem: os shoppings, que espalhariam cizânia à sua volta; os comerciantes de magazines elegantes, que num rompante pouco cívico abandonariam a democracia das ruas abertas; a violência; e, aproveitando a deixa, os condomínios fechados, paraísos artificiais que levariam os consumidores para cada vez mais longe.

Há um fundo de verdade em todos esses argumentos, curtidos em sólidas discussões sociológicas. E, embora sejam citados em lista, como se derivassem um do outro, estão relacionados até a raiz. Em miúdos, não se pode pensar nas cidades-fantasmas – cujo maior símbolo é Detroit, nos Estados Unidos – sem exercitar a arte das sinapses. A única certeza que se tem, ao fim, é de que a violência desponta como o maior prejuízo do que Sennett chamou de "o declínio do homem público". Longe das praças, cavamos nossa própria decadência. Aceitar isso é meio caminho andado.

Dias atrás, a urbanista Raquel Rolnik pôs o dedo na ferida, mas não para repetir as mesmas "nênias tristes". Lembrou que Paris está na dianteira, coibindo a entrada de automóveis nos centros, implantando ciclovias, transporte de bicicletas alugadas, entre outras medidas dessa primavera das grandes cidades. Mas eis que, na contramão da história, há quem teime em dizer que a culpa dos dias ruins é dos calçadões – moda, aliás, iniciada em Curitiba, em primaveras passadas de 1972.

O leitor atento sabe que o "massacre do calçadão" não é uma novidade. E que seus detratores não são, a rigor, burgueses insensíveis. Alguns deles levantam uma questão cara – num mundo organizado em torno do carro, não é de todo absurdo dizer que uma parcela da classe média deixa de ir aos centros por não ter onde estacionar. E não o faz propriamente por ojeriza ao transporte público ou pela aversão a conviver com outras classes sociais, mas porque as exigências profissionais obrigam esse grupo a deslocamentos contínuos.

Vale um debate. A lebre que Raquel Rolnik levanta é que tem algo gritando nessa conversa. Em primeiro lugar, as grandes cidades brasileiras – que reclamam o investimento perdido em suas áreas antigas e nobres – estão patinando na hora de reagir. Deveriam olhar para experiências bem-sucedidas, fora das nossas fronteiras, e repensar seus conceitos. Há o que fazer. Segundo: parece meio absurdo culpar os calçadões, esses vilões em petit-pavê, quando, de fato, os centros sofrem com o abandono das classes médias motorizadas, mas ganharam as classes populares. Basta olhar para o Centro de Curitiba – inclusive no sábado à tarde. Está sempre lotado. Só em volta da Praça Tiradentes há 38 linhas de ônibus. Ponha-se na conta outras praças-terminais, como a Rui Barbosa. Esse movimento só faz aumentar, atraindo para a região o trabalhador e o consumidor dos bairros distantes. Para atendê-los, a cada dia nasce um Centro que se ajusta à nova realidade, com seus PFs e lojas de roupas mais em conta.

Como em toda boa receita de vida urbana, bom seria ter uma misturança, com um pouco de cada coisa. Isso já se disse. Deve-se agora falar das flores. Em meio a todas as dificuldades que imperam sobre as cidades – e esse é um problema de lastro mundial –, pode-se dizer que a capital paranaense alcançou algumas glórias. Seu calçadão pioneiro continua frequentado. A reurbanização da Marechal Deodoro – via paralela à Rua XV – trouxe mais gente e enche os olhos graças à fiação enterrada (virá o dia em que toda a cidade será assim?).

A revitalização da Rua Riachuelo, por sua vez, não foi um absoluto sucesso, mas o espírito urbano está vencendo. A Riachuelo permanece um corredor obscuro, mas as transversais, como a São Francisco, respiram, graças à ação de ciclistas e de lojistas criativos. É SoHo não planejado. Lição de casa: a cidade também se reinventa "na louca", como diz a gíria. Por fim, há mais famílias morando na região central e nos bairros vizinhos, como o Rebouças. Vão descer para uma caminhada no calçadão, para uma compra na padaria, e esse é o ponto.

Em tempo, não se trata de uma leitura ingênua. Os problemas urbanos não são segredo. O mistério é que demoramos tanto a admitir que a popularização dos nossos velhos centros é uma boa notícia. E o impacto do transporte público, santo remédio para salvar essas regiões dos escombros. Resta aos gestores urbanos estimular o "viver junto". Dizem que é a alma do negócio.

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