Ao firmar um acordo nuclear com a Índia o presidente Bush, dos Estados Unidos, reconheceu a emergência desse país asiático como uma nova potência mundial, referindo-se expressamente ao fato de que os indianos têm sabido aproveitar a globalização. Ao lado do significado geopolítico do pacto sobre intercâmbio de tecnologia nuclear para fins civis, Bush destacou que o crescimento da economia indiana, apesar de atrair empregos do Primeiro Mundo inclusive americanos via terceirização, criou um mercado com 300 milhões de pessoas na classe média.
Portanto, exortou o presidente ianque, em vez de apenas enxergar a ameaça indiana e dos demais emergentes que tiveram sucesso: China, Coréia, etc seus compatriotas devem aproveitar as oportunidades de negócios apresentadas por esses países, onde uma crescente capacidade de produção e consumo pode absorver bens e serviços produzidos nos Estados Unidos. A presença de Bush na Índia evidencia as transformações acarretadas pelo fenômeno contemporâneo da globalização, que representa maior aproximação entre os povos via tecnologias de comunicações e transportes, entre outras.
Para o ensaísta norte-americano Thomas Friedman, "o mundo se tornou plano", ao que o geógrafo Yves Lacouste acrescenta que "o mundo encolheu", em decorrência dessa interação nos níveis econômico, científico e, agora vê-se com a visita de Bush à Índia político. O novo arranjo do cenário mundial mostra que se a Europa e os Estados Unidos acumularam riqueza e poder no século 20, há novos atores disputando espaço, primeiro os Tigres Asiáticos e atualmente, China e Índia.
Tais países souberam despertar suas vastas populações para o desafio contemporâneo e passaram a crescer a altas taxas sustentadas, havendo previsão de se tornarem potências mundiais no curso desta geração. O Congresso anual da China, reunido nesta semana, planeja dobrar o já respeitável PIB nacional (quarto maior do planeta) até 2020; enquanto a Índia fechou 2005 em sétimo lugar, superando várias economias desenvolvidas. Em outra mão, a América Latina, como um conjunto geopolítico, tem operado numa linha que rejeita a globalização ao encontrar dificuldades para enfrentar seus desafios.
Essa negação se expressa por um nacionalismo populista de feição defensiva, que tenta fixar num adversário hipotético as frustrações incorporadas na incapacidade de sair do estágio de economia fornecedora de matérias-primas. Enquanto isso asiáticos, europeus do Leste e outros desafiantes ocupam os nichos de mercado mais rentáveis.
O debate marcado para a tarde de hoje na Assembléia Legislativa para discutir essa questão passa pela necessidade de integração regional como resposta aos desafios globais, na linha proposta pelo estadista argentino Eduardo Duhalde. O Mercosul pode ser um degrau, mas a responsabilidade repousa em cada nação e cada habitante dos países do bloco: assumir o papel de ator nessa competição global que domina a realidade de nosso tempo.



