A popularização da televisão aos lares da classe média, na década de 60, funciona como um sopro à memória. Para ouvir histórias deliciosas sobre aqueles tempos, basta puxar o assunto com quem usava calças curtas antes da chegada do homem à Lua. É como ligar o botão quadrado dos velhos caixotes a válvula, mas sem precisar esperar 10 minutos para a imagem aparecer, como era de praxe.
Pronto: fala-se com paixão dos enlatados americanos aqueles sim, muito bons , canta-se o tema de "Bat Masterson", elogia-se o gênio de Jeannie e as feitiçarias de Samantha. E há mesmo quem recorde com saudade os homéricos pitos familiares quando o tempo diante do televisor excedia o recomendado.
O misto de restrição e euforia com que a tevê foi recebida é um bom estudo de caso. A favor da euforia havia a era camelot como ficaram conhecidos os anos Kennedy, cujo encanto passava sim pelas telinhas, nas quais John e Jacqueline ficavam muito bem. A televisão, diga-se, aproximou os brasileiros do resto do mundo, mas principalmente da América.
Do outro lado, tinha-se o receio natural de que a novidade formasse uma geração de "videotas" misto de termo técnico com xingamento que bem traduzia o medo de criar uma geração sem idéias na cabeça. Muitos desses veredictos, nascidos das teorias críticas de comunicação, pecaram pelo excesso de fleuma e ausência de dados. Enquanto demonizavam a mídia, muitos teóricos subestimavam o poder de influência da família, da escola e da religião, às quais as crianças e adolescentes estavam muito mais sujeitos do que às licenciosidades da Sessão Coruja.
No entanto, as teorias críticas não eram assunto para a hora do almoço em famílias médias brasileiras. Ali, a instrução era baixa, a prole grande e o aparelho comprado em prestações. O motivo que as levava a estar com o pé atrás diante do novo meio era de outra natureza uma natureza difícil de ser mensurada. A tevê podia mais do que convencer a encurtar as saias. Podia pôr a casa abaixo. Melhor prevenir.
Bons tempos? Toda nostalgia é manca e caolha, sabe-se. Mas há um fato que concorre para provar que algo de bom se perdeu no trato caseiro com os meios de comunicação a facilidade com que a internet entrou porta adentro. Tudo indica que não se aplicou a ela as mesmas sanções um dia impostas à televisão.
A explicação é pura hipótese. Os computadores não vieram ao mundo com aura de entretenimento, feito os televisores, mas como soberbas fontes do conhecimento. São demiúrgicos. Revistas da década de 50 estupefatas diante dos avanços da ciência mostravam o cérebro de lata gigantesco da Nasa como um arauto do futuro. E um filme como 2001 Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, faz do Hal 9000 quase um personagem. Sem falar nos mil e um elogios destinados à chamada "sociedade informática", expressão que embalou os sonhos da geração 70 e 80.
Não causa espanto que, quando de sua popularização, os micros não tenham ficado sujeitos a tramelas, mesmo por parte dos pais mais atentos. É provável que muitos se sentissem mais tranqüilos ao saber que seus pimpolhos estavam diante do monitor a estirados no sofá assistindo à Sessão da Tarde.
Não se trata, obviamente, de aplicar à rede mundial de computadores a mesma pena severa reservada pela teoria crítica à televisão. A sociedade está de tal forma "linkada" à informática que nos tornamos "perdidos no espaço" virtual. É caminho sem volta. O mesmo não se pode dizer da exposição excessiva de crianças e adolescentes a um instrumento que não é o supra-sumo do saber, mas um espaço pós-tudo, sujeito a todas as desventuras do mundo contemporâneo. É ali que mora o perigo.
Pode-se aprender a usar a rede. Deve-se. É a única maneira civilizada de regular seus excessos, de moldá-la para o que foi sonhada. E esse aprendizado começa em casa, única fonte de regulação não-artificial. Os sinais de que a saúde da rede passa pela mesa da cozinha já estão dados.
Pesquisa da ONG SaferNet, em parceria com o Ministério Público Federal, publicada semana passada, consultou 1.326 internautas, sendo 875 crianças e adolescentes e 451 pais. Os resultados pedem toques de sirene. Ficou confirmado que a internet é um território absolutamente livre para 30 milhões de brasileiros mas a que preço: 87% dos usuários jovens a usam sem restrição familiar; 77% navegam o tempo que quiserem e 44% declararam passar na rede mais de quatro horas dia.
Tão impressionante quanto a onipresença da internet inimaginável para um garoto da classe média que viu a tevê chegar em casa, nos idos de 60 é o fator de risco: 53% dos consultados admitem ter contato com conteúdo impróprio e 72% publicaram fotos na rede. O resto dá para calcular.
A "babá eletrônica", como um dia foi chamada a televisão, encontrou de fato uma concorrente. Ano passado, por exemplo, vendeu-se no Brasil 10 milhões de computadores um número maior do que a comercialização de televisores. O acesso à internet vem a reboque: é de mais de 80% para a classe A e cresce de forma espantosa nas outras faixas.
Não se discute os ganhos da inclusão digital. O estranho é que a sociedade tenha avançado tão pouco em criar mecanismos de prática segura de uso desse meio. Há exemplos notáveis, como o Instituto WFCBrasil, criado pela rainha Sílvia, da Suécia. É um propagador de táticas de segurança na rede, protegendo da pedofilia e da pornografia infanto-juvenil. Também não faltam reportagens de alerta.
Mas a contar pela pesquisa da SaferNet, boa parcela dos pais ainda se comporta como se seus filhos estivessem diante de uma Barsa animada, ou como se o micro fosse a garrafa onde repousa a inocente Jeannie. Este seriado já acabou. Agora é a hora de criar regras domésticas de navegação. Com sorte, serão as melhores lembranças das crianças e adolescentes dos idos de 2008.



