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O governo federal anunciou, com ar triunfal, o cumprimento da meta fiscal de 2025. Os números, porém, contam outra história: um déficit de R$ 61,7 bilhões, 32% maior que o registrado em 2024. Ainda assim, graças às brechas do novo arcabouço fiscal, às bandas de tolerância e a uma série de exclusões convenientes, o resultado foi oficialmente celebrado como sucesso. Trata-se menos de responsabilidade fiscal e mais de contabilidade criativa institucionalizada.
O discurso oficial insiste em controle, mas os dados desmentem a narrativa. Em 2025, a arrecadação cresceu em termos reais, mas os gastos cresceram ainda mais. O resultado foi um rombo gigantesco, uma dívida crescente e a repetição de um padrão conhecido: o governo gasta além do que arrecada e, depois, reinterpreta as regras para declarar vitória.
Cumprir meta fiscal com rombo crescente não é virtude. É um artifício. A responsabilidade fiscal não se mede pela habilidade de explorar exceções, mas pela disposição de enfrentar o desequilíbrio estrutural entre receitas e despesas
O novo arcabouço fiscal, vendido como marco de credibilidade, revelou-se um mecanismo elástico, capaz de acomodar déficits vultosos sem que a meta seja formalmente descumprida. Basta excluir despesas relevantes – precatórios, ressarcimentos do INSS, gastos com defesa e educação – para que o rombo real desapareça do papel, ainda que continue pesando sobre as contas públicas.
O próprio Tesouro Nacional admite que a dívida pública já alcança 79,3% do PIB e deve continuar crescendo nos próximos anos. A Instituição Fiscal Independente, ligada ao Senado, vai além: alerta que, mantida a trajetória atual, a dívida pode ultrapassar 100% do PIB e chegar a 117% em 2035 – um patamar incompatível com a realidade de um país emergente.
Os alertas da IFI são claros e incômodos. Segundo seu diretor-executivo, Marcus Pestana, a gastança recorrente pressiona o endividamento e empurra os juros a níveis estratosféricos. O resultado é perverso: toda a sociedade passa a pagar uma “taxa de agiota” para financiar a fragilidade fiscal do Estado. A lógica é simples: déficits contínuos exigem mais dívida, que exige juros mais altos, que sufocam investimentos e crescimento.
O problema não é recente. Este foi o 12º ano consecutivo em que o governo gastou mais do que arrecadou. Desde 2014, o país não conhece superávit primário. Mas nos últimos anos o rombo disparou. Em apenas três anos, a dívida cresceu quase oito pontos percentuais do PIB. Ainda assim, o governo insiste em tratar déficits crescentes como algo administrável – e até virtuoso – desde que enquadrados nas regras que ele próprio flexibilizou.
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A promessa de um superávit de 1% do PIB em 2026 soa, nesse contexto, mais como desejo político do que como plano crível. A própria IFI é categórica: para estancar o crescimento da dívida, o Brasil precisaria de um superávit próximo de 2% do PIB, algo improvável em um ano eleitoral e ainda mais distante diante da resistência do Congresso a novos aumentos de carga tributária.
Ainda sim, com a desfaçatez de costume, o governo fala em “resultado satisfatório” enquanto empurra o problema para o futuro – e para o próximo presidente, seja quem for. A conta, porém, não desaparece. Ela se acumula, corrói a confiança, mantém os juros elevados e compromete a capacidade do país de investir, crescer e oferecer perspectivas reais às próximas gerações.
Cumprir meta fiscal com rombo crescente não é virtude. É um artifício. A responsabilidade fiscal não se mede pela habilidade de explorar exceções, mas pela disposição de enfrentar o desequilíbrio estrutural entre receitas e despesas. Enquanto o governo insistir em celebrar déficits como se fossem conquistas, o Brasil continuará pagando caro – em juros altos, baixo crescimento e oportunidades perdidas – pela recusa em tratar as contas públicas com a seriedade que a realidade exige.



