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Editorial

Os juros e a cautela

Por mais bem-vinda que seja uma nova redução da Selic, ainda parece haver mais motivos para preocupação que para otimismo

 | Marcelo Andrade/Gazeta do Povo
(Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo)

A taxa básica de juros, a Selic, voltou a um dígito após a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, encerrada na quarta-feira. O corte que baixou a taxa para 9,25% é o sétimo seguido, e pela terceira vez consecutiva o Copom decidiu reduzir a Selic em um ponto porcentual. No fim de maio, quando baixou os juros para 10,25%, o Copom havia dado a entender que o ritmo do afrouxamento monetário seria reduzido, ou seja, os cortes seguintes seriam menores. No entanto, dois meses depois, a opção unânime foi por manter a redução de um ponto porcentual.

A nota emitida pelo Banco Central no fim de maio vinha impactada pelo “efeito Joesley” – duas semanas antes, havia estourado o escândalo da delação premiada do dono da JBS, atingindo diretamente o presidente Michel Temer e abalando sua base de apoio no Congresso. O texto destacava “o aumento recente da incerteza associada à evolução do processo de reformas e ajustes necessários na economia brasileira”.

O governo segue incapaz de fazer cortes significativos e recorre ao aumento de impostos para cumprir a meta fiscal

De fato, Temer balançou a ponto de a Câmara estar analisando a denúncia oferecida pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, com base na delação de Joesley Batista. No entanto, o presidente conseguiu duas vitórias: a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara rejeitou o relatório favorável à denúncia (que, no entanto, ainda será votada pelo plenário) e, o mais importante, o Senado aprovou a reforma trabalhista.

No campo econômico, o IPCA registrou, em junho, a primeira deflação desde 2006, com o índice recuando 0,23%, levando o acumulado de 12 meses a 3%, o piso da meta de inflação determinada para 2017. Uma deflação, no entanto, motivada ainda pelos mais perversos dos efeitos da crise econômica provocada ainda no governo Dilma Rousseff: a redução da demanda provocada pelo elevado desemprego, que insiste em permanecer na preocupante casa dos 13% e oferece mais uma razão para medidas que ajudem a movimentar a economia e incentivar investimentos, como é o caso da queda dos juros.

Leia também:A Selic e o “efeito Joesley” (editorial de 2 de junho de 2017)

Leia também:Eufemismos econômicos (editorial de 24 de julho de 2017)

O tom da nota emitida pelo Copom dias atrás pode ser considerado mais otimista que o texto de dois meses atrás. “A manutenção deste ritmo dependerá da permanência das condições descritas no cenário básico do Copom e de estimativas da extensão do ciclo”, afirma o BC. No entanto, os motivos para cautela continuam presentes e não podem ser minimizados. Ainda que a Câmara mantenha Temer no Planalto, o enfraquecimento do presidente é péssima notícia para a reforma da Previdência, que, por depender de emenda constitucional, exige mais votos em comparação com a reforma trabalhista – votos estes que o governo não tem, a ponto de aliados do Planalto começarem a falar em deixar o assunto para o próximo presidente, em 2019. Um adiamento fatal.

E as contas públicas já estão suficientemente pressionadas, com o governo sendo incapaz de fazer cortes significativos e recorrendo ao aumento de impostos para conseguir cumprir a meta fiscal de 2017, um déficit primário de R$ 140 bilhões. Tirar mais dinheiro do contribuinte e do setor privado é colocar mais empecilhos à retomada da economia. Assim, por mais bem-vinda que seja uma nova redução da Selic, ainda parece haver mais motivos para preocupação que para otimismo.

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