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Editorial

Os riscos do voluntarismo econômico

O presidente Lula deve a maior parte da sua popularidade ao desempenho positivo nas quatro áreas principais da economia: as contas externas, as contas públicas, a inflação e o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Ainda que tenha sucesso em diversas áreas e diversas políticas públicas, um mau desempenho naquelas quatro áreas destrói a popularidade de qualquer governante e inviabiliza qualquer ideia de sucesso na economia. O grande mérito de Lula foi o de ter permitido que as autoridades econômicas e monetárias tratassem com responsabilidade a política fiscal, a política monetária e a política cambial, e de não ter cedido aos apelos demagógicos e irresponsáveis de algumas alas do seu partido para "mudar tudo que aí está" nessas três políticas econômicas básicas, que começaram a ser implantadas nos governos anteriores.

O alívio das contas externas, possibilitado pelo acúmulo de reservas internacionais, deveu-se ao grande salto do Brasil na sua capacidade de exportador, e tirou o país da condição de eterno dependente de financiamento externo e da ajuda dos organismos internacionais de crédito, como o FMI e o Banco Mundial. O controle da inflação, que sempre foi zona de fracassos constantes até 1994, somente foi obtido porque o governo manteve, pelo menos por um bom tempo, as contas públicas em equilíbrio e por ter respeitado as bases do Plano Real, em especial a condução firme do Banco Central na política monetária e nos juros.

Pois é exatamente esse comportamento de respeitar a essência de uma boa política econômica que garantiu a estabilidade da moeda e viabilizou o crescimento do produto e do emprego, que agora corre o risco de ser posto de lado e ceder lugar à demagogia e ao voluntarismo. Ou seja, a autoconfiança de Lula atingiu um ponto tão alto que o presidente parece crer que nenhuma das suas ações pode ruir os pilares da economia, e nisso resi­­de seu grande equívoco. A concessão de reajustes salariais, o aumento do quadro de funcionários, os benefícios tributários a setores privilegiados e a abertura do cofre em ano eleitoral são al­­guns dos ingredientes que podem destruir o equilíbrio das contas fiscais e botar fogo na inflação e na elevação da taxa de juros.

Seria lamentável para o país e para o governo que Lula passasse a adotar um comportamento irresponsável, respaldado por sua alta popularidade e pela crença na sua infalibilidade, e tornas­­se tolerante com a piora das contas públicas. A his­­tória é farta em demonstrar desastres e retrocessos derivados do mau gerenciamento das políticas econômicas essenciais. A economia pode não ser uma ciência exata, mas ela tem suas leis, seus princípios, seus conceitos e costuma cobrar um alto preço de quem brinca com sua lógica ou de quem se dedica a experimentos de voluntaris­­mo e de afrouxamento. E, a se julgar pelo comportamento do governo nos últimos meses, existe um risco concreto de ocorrer uma deterioração dos indicadores econômicos.

Um dos fracassos deste governo é, sem dúvida, o baixo nível de investimentos públicos em infraestrutura, quase toda ela estatizada, o que pode ser o principal obstáculo ao crescimento sustentável do PIB. Portanto, soa bem aos ouvidos da nação quando o governo diz que vai acelerar obras e projetos, e é menos mal quando o governo resolve abrir o caixa para financiar investimentos na infraestrutura. Porém não é isso que vem acontecendo no Brasil. O quadro que se delineia é uma piora das contas públicas por aumentos nos gastos com salários, distribuição de benefícios e outras despesas de custeio. Tanto assim que as últimas atas do Con­­selho de Política Monetária (Copom) trazem alerta sobre o perigo de aumento da taxa de inflação em razão de gastos públicos e de aumento do consumo a crédito, fatos que acabam sendo também obstáculos à queda na taxa de juros.

Estabilidade econômica e indicadores positivos dependem de competência e austeridade constante na administração da política fiscal, da política monetária e da política cambial. Qual­­quer relaxamento pode custar anos de preparação do país para crescer de forma harmônica e sustentável.

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