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Editorial

O PIB desacelera

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Selic alta desacelerou a economia, mas juros são consequência do excesso de gastos do governo. (Foto: Unsplash)

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O crescimento de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025, de acordo com dados divulgados pelo IBGE na terça-feira, não chegou a surpreender – o mercado financeiro já previa um número nesta faixa. É o pior resultado desde o início da recuperação econômica pós-pandemia, mas o que talvez chame mais a atenção é o fato de o país estar estagnado: o PIB cresceu apenas 0,1% no quatro trimestre em comparação com os três meses anteriores, e o IBGE revisou para baixo o desempenho do terceiro trimestre, de 0,1% para zero.

Aqui, não há mistério: a política monetária contracionista do Banco Central, que levou a Selic a 15% ao ano em junho do ano passado e manteve a taxa neste patamar desde então, desacelerou a economia. Esta é a parte que o governo Lula irá ressaltar, para responsabilizar o Banco Central pela freada do segundo semestre de 2025. O que nenhum membro da equipe econômica dirá é que o aperto monetário é consequência do descontrole fiscal do governo federal, que gasta como se não houvesse amanhã, desvalorizando a moeda e provocando inflação, que o BC combate com a única ferramenta que tem à disposição: elevando a Selic. A inflação, aliás, só não foi pior porque o vaivém tarifário de Donald Trump prejudicou o dólar, que perdeu valor globalmente e barateou o custo de itens importados.

O aperto monetário que desacelerou a economia é consequência do descontrole fiscal do governo federal, que gasta como se não houvesse amanhã

O mercado dava como certo o início de um ciclo de afrouxamento na próxima reunião do Copom, ainda em março – o próprio comitê havia antecipado essa possibilidade após sua reunião de janeiro –, o que poderia dar um fôlego ao setor produtivo em 2026. No entanto, a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, com todos os seus efeitos econômicos, especialmente quanto ao fornecimento internacional de petróleo, lançam incerteza sobre o momento de início e a intensidade da redução nos juros.

Além disso, em ano eleitoral não há como descartar outra explosão no gasto público ou a aprovação de medidas populistas que piorem ainda mais a situação fiscal do país, elevando a inflação ou ao menos ressuscitando a “desancoragem das expectativas”, o que já basta para o Copom voltar a agir. É sintomático que, apesar do resultado zerado do PIB nos dois últimos trimestres de 2025, o consumo do governo subiu 1,3% no período de julho a setembro, e mais 1,0% entre outubro e dezembro.

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O Ministério da Fazenda prevê para 2026 uma repetição de 2025, com novo crescimento de 2,3%. Já o mercado financeiro prevê nova desaceleração: 1,82%, segundo o mais recente Boletim Focus. Embora o país sempre possa contar com a força do agronegócio (que subiu 11,7% no ano passado), há razões de preocupação: os investimentos e a poupança permaneceram praticamente estáveis como proporção do PIB (16,8% e 14,4% respectivamente), em níveis abaixo do ideal – a taxa de investimento recomendada é de 25% do PIB; e o consumo das famílias, a outra ponta da estratégia do governo para manter a economia superaquecida, dá sinais de exaustão: ficou estável no último trimestre de 2025, enquanto o número de famílias endividadas cresceu, chegando a um recorde de 79,5% em janeiro, segundo a Confederação Nacional do Comércio. São condições que dificultam um ciclo prolongado e sustentável de crescimento.

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