É constrangedor que estejam no comando do Congresso Nacional parlamentares que mereçam a adjetivação de vis
"Nesse momento em que a atividade política é tão vilipendiada, faço questão de registrar nesta mensagem o meu sincero reconhecimento ao imprescindível papel do Congresso Nacional na construção de um Brasil mais democrático, justo e soberano." As palavras fazem parte da mensagem que a presidente Dilma Rousseff encaminhou ao Congresso Nacional na última segunda-feira, quando da reabertura da nova legislatura. Presentes à sessão estavam os novos presidentes da Câmara dos Deputados, Henrique Alves, e do Senado, Renan Calheiros, recém-eleitos para os cargos apesar do clamor da sociedade, que os inclui entre os políticos que mais contribuíram para o vilipêndio da atividade política, como disse a presidente.
Diz o Aurélio que o substantivo "vilipêndio" raiz do verbo "vilipendiar" flexionado por Dilma é sinônimo de "desprezo, menoscabo, aviltamento"; já como verbo, traduz-se como "ter ou considerar como vil; desprezar, repelir". A segunda frase da mesma oração, em que a presidente reconhece o papel do Congresso na construção de um Brasil democrático e justo, não é menos verdadeira que a primeira. O problema está no paradoxo visceral entre as duas frases.
Como combinar coisas tão distintas? Chega a ser um truísmo a afirmação de que o Congresso é imprescindível num estado "democrático, justo e soberano", pois o contrário disso seria a concentração absoluta de poderes no Executivo caminho para a submissão ou mesmo a extinção do Judiciário. Estaria instalado o autoritarismo em seu mais alto grau, experiência triste que o país já viveu nos tempos recentes do regime militar. Ou, antes, no Estado Novo de Getúlio Vargas. Logo, defender o Poder Legislativo é defender a própria democracia e proteger a nação de quaisquer laivos autoritaristas que possam surgir no horizonte.
Apesar da obviedade da afirmação de Dilma em defesa do Congresso, chega a ser constrangedor que tenhamos a comandá-lo parlamentares que mereçam a adjetivação de vis. A vileza não é atributo exclusivo dos que desfrutam de mandatos legislativos, pois de novo recorrendo à afirmação da presidente é a atividade política como um todo que sofre de vilipêndio, isto é, que é vilipendiada. O que atinge também muitos políticos que militam em outros níveis e esferas.
Eis o paradoxo: como confiar o futuro do país e da nossa ainda adolescente democracia aos cuidados dessa classe política? Se há uma relação intrínseca de interdependência entre a atividade política que se expressa (principalmente, mas não exclusivamente) no Congresso Nacional e da qual depende a "construção de um Brasil mais democrático, justo e soberano", a consequência direta que se extrai dessa assertiva é que a atividade política precisa deixar de merecer o vilipêndio popular que se lhe dedica para que tenhamos a garantia de "um Brasil mais democrático, justo e soberano".
Os próprios políticos estão entre os primeiros a reconhecer que as causas do vilipêndio que sofrem encontram-se na conduta que adotam. No entanto, entregam o bem mais precioso e emblemático da democracia o Congresso justamente a quem não faz questão de honrá-lo. O que leva a outra constatação: pior que o vilipêndio sofrido pela classe política é o desprezo que esses mesmos políticos reservam à população que os elegeu.



