A reunião do chamado G20, grupo de países desenvolvidos e emergentes, realizada nos Estados Unidos para discutir a crise global, teve um resultado no mínimo interessante. Para os que esperavam muito, o resultado acabou desapontando. Para os que nada esperavam, a cúpula deixou pontos positivos e justificou a sua realização. Uma reunião neste momento, convocada por um presidente que deixará o cargo em janeiro próximo, não teria como levar a conseqüências de grandes proporções. Em sendo o presidente americano George W. Bush, as expectativas teriam que ser ainda mais reduzidas, em face do baixo prestígio do ocupante da Casa Branca neste fim de mandato.
Talvez o efeito mais importante dessa reunião tenha sido a consolidação do grupo dos 20 como um órgão respeitável, cuja existência passa a ficar garantida, com relevante papel a cumprir na discussão de problemas de política internacional e de relacionamento entre os países. O G20 passa a ter estrutura, definição operacional e agenda, devendo encontrar-se em abril do ano que vem, com Barack Obama já no comando dos EUA, e uma série de assuntos na pauta. Um segundo efeito que merece louvor é o compromisso dos países-membros em não adotar qualquer medida adicional de protecionismo e fechamento comercial.
Se não houve acordo para a supressão de subsídios internos que dificultam as exportações para os países que os praticam, mesmo porque essa medida tinha baixa probabilidade de ocorrer, pelo menos os participantes entenderam que era preciso firmar o compromisso de evitar uma recaída protecionista. Para o Brasil, esse ponto é importante, no mínimo para evitar que na próxima rodada de negociações com a Argentina o país vizinho resolva criar mais embaraços para as exportações brasileiras. O governo argentino já tinha mandado sinais de que pretendia impor novas barreiras contra as importações que fazem do Brasil, o que seria ruim para os exportadores daqui, além de colocar mais pimenta nas relações entre os dois países.
Quanto à crise financeira que assola o mundo, seria ingênuo esperar medidas concretas em função da reunião do G20. Nesse campo, o que prevaleceu foi o compromisso harmônico de que os governos farão consultas entre si para a adoção de medidas que impeçam o recrudescimento da crise. Um tema que ganhou importância nas conversações foi o problema da redução do crédito para financiar a produção e as vendas, em especial, para o comércio exterior dos países. Os líderes reunidos assumiram o compromisso de mobilizar o Banco Central e a política monetária para abastecer o mercado de linhas de crédito capazes de financiar os negócios.
Numa postura de realismo político, a avaliação é de que a reunião do G20 não foi tempo perdido nem causou decepção, mas criou um ambiente favorável a progressos nas negociações e acordos entre os membros, se não agora, pelo menos num futuro próximo. Em se tratando de conversações entre países com interesses conflitantes, tendo como único ponto de convergência a luta contra a crise financeira mundial, a reunião deixou sim pontos positivos e ao governo brasileiro cabe trabalhar para fortalecer o grupo e ter atuação destacada nos encontros futuros.



