Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Editorial

Pro dia nascer feliz

Duas sombras se projetam sobre as figuras dos presidenciáveis Dilma Rousseff e José Serra – a dos ministros de Educação que deram algumas glórias aos seus respectivos partidos, o PT e o PSDB. Por obra do além, Paulo Renato de Souza, o ministro de FHC que botou lenha nas universidades brasileiras, e Fernando Haddad, que trabalhou como um estivador pela inclusão de alunos e qualidade das escolas fundamentais, foram poucos lembrados nesses dias de som, fúria e bolinhas de papel.

Nenhum dos dois é a encarnação do Buda, ambos pegariam segunda época na avaliação em alguns setores da inteligência nacional. Mas não se pode negar que, a seu tempo e modo, tiraram a educação do riacho fundo, fazendo dela uma conversa tão acalorada quanto o futebol. Daí a estranheza diante do tratamento rasteiro dado ao tema em toda a campanha.

Grosso modo, o motivo do apagamento dos temas "renatianos" e "haddadianos" é só um: educação, que ironia, não traz votos a ninguém. A contar pelos experts da política, o que definiria as urnas é renda e consumo. O resto fica para nosso rosário de queixas, no qual lamentar o ensino é quase uma devoção.

Mas se há um conselho que pode ser dado, nesse caso, é o da desconfiança sistemática. Desconfiar da capacidade da educação em abalar a opinião pública é uma questão de civismo. À revelia do desprestígio que o item desfruta na cesta básica dos políticos, é notório que a situação ainda frágil das escolas brasileiras mexe com os brios do povo.

Uma boa medida nessa hora de pouco caso com o sentimento nacional em torno da educação seria o país inteiro assistir ao belíssimo documentário Pro dia nascer feliz, de João Jardim, lançado em 2007. É utopia imaginar uma Sessão Coruja tão edificante. Mas a política é também a arte de plantar caraminholas. Ele ilustra nossas pobres estatísticas educacionais com cenas e personagens da vida como ela é. Ninguém sai impune do que vê.

A produção faz um tour pelo país, mostrando alunos de cidades pequenas e de periferias. A única exceção é uma daquelas superescolas de São Paulo, onde Jardim dá a palavra a um grupo de meninas da classe média alta. Elas admitem viver numa bolha, mas dizem não ter culpa de pertencer à elite. "Tenho minha vida para viver, a minha natação", diz, sem jeito, a estudiosa Cissa, antes de chorar.

Pode ser o depoimento mais chocante, mas a impotência dessa estudante pouco importa. Pro dia nascer feliz é uma incursão por escolas sem descarga e sem papel higiênico, cujas salas de aula parecem saídas de uma guerra civil. Nessas terras de ninguém, professores faltam e alunos não entendem o que se diz em sala de aula. Um conselho de classe em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, resume a ópera: ninguém sabe o que fazer com um estudante criativo, inteligente, mas que se orgulha de andar armado em bailes funks.

Douglas, o tal, é o produto final da nossa dívida educacional. E ninguém pode alegar não saber muito bem o que se deve. Graças a gente imperfeita como Paulo Renato e Haddad, a educação passou pela fita métrica e pela balança. Estamos informados. Aprendemos a fazer contas.

Apenas 26% da população brasileira de 15 a 64 anos têm condições de resolver operações matemáticas simples e entender frases com o mínimo de complexidade. Milhares delas passaram pela escola. A escola, aliás, não segura muita gente.

À revelia da universalização do ensino básico, 32% dos alunos da primeira série são repetentes. Se parecer pouco, que se anote o próximo número: 84,5% das crianças que não sabem ler estão na escola. O dado é do IBGE. Dito de outro jeito, os professores não conseguem alfabetizar, gerando uma de nossas tragédias, a defasagem ensino-série, cujo final não é feliz.

Pergunte a vários adolescentes de 14 anos em que ano eles estão. Muitos estarão bem longe de onde poderiam. À repetência e evasão, some-se outro dado pouco alvissareiro: as escolas são ruins. Informações do Sistema de Avaliação da Educação Básica, Saeb, mostram que de 1995 a 2005 as notas dos alunos da rede pública despencaram. As instituições particulares apresentam desempenho até 23% melhor.

Parte desse quadro se deve à inabilidade dos professores em responder a esses tempos bicudos. Trata-se de uma profissão em abandono. Poucos bons alunos abraçam o magistério, estabelecendo o círculo do vício. Como mostrou estudo de 2008 da Fundação Lemann e Instituto Futuro Brasil, apenas 5% dos estudantes com alto desempenho escolar escolhem a sala de aula como profissão.

Quem pensou que um bom salário resolveria, acertou – mas o acerto é parcial. O discurso de que dinheiro resolve a educação virou poeira. Basta pesquisar quais são as instituições bem avaliadas e suas regiões. Jales, no interior de São Paulo, investe R$ 415 por ano em cada aluno, menos da metade da média nacional. Mesmo assim, tem notas 21,5% maiores na Prova Brasil. Seu segredo? Jornadas de 5,1 horas por dia.

E o que dizer da minúscula Barra do Chapéu, Vale da Ribeira, com 4,9 mil habitantes, 24 ruas asfaltadas? Nem a pobreza nem a distância retirou a cidade do topo das avaliações federais.

Pois é, ao novo presidente, seja ele quem for, deve investir numa escola criativa, com mais horas de expediente, povoada por mestres que tenham ensino superior: a estimativa é que apenas 47% dos professores do ensino básico tenham passado por uma universidade.

Com tanto por se fazer, não causa espanto que pouco mais de 30 municípios brasileiros tiveram alguma nota acima de 5, 7 no Ideb 2007. Foram 4.350 avaliados. E que 1,5 milhão de adolescentes entre 15 e 17 anos estejam longe da sala de aula. Entre os que não desistiram, quase 40% estudam à noite, o que comprovadamente traz prejuízos à aprendizagem.

Paulatinamente, a moçada se vai. Entre 1998 e 2008, o porcentual de alunos que se dividem entre emprego e estudo avançou 63% para 71%. Em 2006, pesquisa do Pnad perguntou por que o jovem evade. Quase metade disse não gostar da sala de aula, confirmando que política pública para o setor não se faz só com bolsas e prédios novos. É preciso adotar as regras da atração.

Do contrário, ao partir, os que se vão continuarão a ver instituições defasadas e entristecidas – 60% delas mal colocadas no Enem. Falta-lhes pintura, papel higiênico, carteiras. Ali, ouvem-se broncas demais. E avisos de que hoje não vai ter aula. Que ninguém tente dizer que não sabemos exatamente a distância entre a escola e a felicidade.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.