Qualquer executivo sabe que a sobrevivência da empresa depende da última linha do fluxo de caixa. Se houver sobra (superávit), a organização pode investir e crescer. Se houver saldo negativo (déficit), ela terá que se endividar para pagar o prejuízo, diminuindo o patrimônio líquido dos sócios. Com uma nação não é diferente. No Brasil, dá-se muita ênfase ao "superávit primário", que é a sobra de caixa do setor público após os gastos com pessoal, custeio e investimentos, porém, antes de contabilizar os pagamentos dos juros da dívida do governo. Quando o fluxo de caixa é concluído, após os juros, o que sobra é um déficit, que vem se repetindo todos os anos.
O déficit público brasileiro gira em torno de 3% do Produto Interno Bruto, devendo ficar na casa dos 80 bilhões de reais em 2008. Esse saldo negativo é um grande problema, já que não dá para pagá-lo com aumento de impostos em função de a carga tributária ter atingido o limite do suportável. A solução de cobrir o furo emitindo moeda é inaceitável, porque gera inflação, cujos efeitos punem mais fortemente as camadas mais pobres da população. A saída que o Brasil vem adotando, há muitos anos, é o aumento da dívida pública, que tem o efeito ruim de elevar a taxa de juros, inibindo despesas de capital no setor privado (investimentos). Essa situação impede o aumento da produtividade do sistema e inviabiliza a solução da pobreza.
Considerando que a produção é resultado de trabalho mais capital, o aumento da produtividade requer expansão dos investimentos em infra-estrutura, que é basicamente estatal, e dos investimentos privados, que dependem de taxas de juros menores. O círculo vicioso do impasse se estabelece, pois a redução da taxa de juros exige que a dívida do governo seja reduzida, o que só é possível pelo fim do déficit público. A excessiva ênfase no superávit primário cria a impressão, equivocada, de que as contas públicas estão equilibradas, quando a última linha do fluxo de caixa é, todo ano, um déficit, com um agravante sério: o excesso de gastos do governo sobre sua arrecadação não é resultado de grande volume de investimentos públicos, mas sim do excessivo tamanho do governo e sua máquina administrativa e burocrática.
Diante desse quadro, só há duas soluções para o déficit no Brasil: a redução nos gastos com serviços e com a máquina pública e o aumento da arrecadação resultante de crescimento do produto anual, sem elevação da carga tributária. O ideal seria uma combinação de ambas. A primeira solução está nas mãos dos políticos que dirigem o país, enquanto a segunda depende do setor privado, mas requer redução da taxa de juros e a atração dos investimentos privados nacionais e estrangeiros. Entender essas intrincadas questões econômicas e fazer da sua solução uma prioridade, eis aí uma tarefa à qual deveriam se entregar os políticos brasileiros. A sociedade, uma vez esclarecida, sem demagogia e sem populismo, certamente emprestaria sua aprovação às medidas necessárias para que o país saia dessa marcha de baixo crescimento econômico e possa reduzir a pobreza.



