Os 21 países que integram a Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec) apoiaram a continuidade de negociações por maior abertura do comércio mundial, mas as atenções gerais estão voltadas para o Iraque. Uma conferência visando a conciliar os três principais grupos iraquianos foi convocada pela Liga Árabe: sem entendimento entre xiitas, sunitas e curdos, o país continuará sofrendo instabilidade sangrenta, com repercussão sobre a agenda da paz.
A virulência no Iraque aumentou depois que tropas internacionais descobriram uma prisão do governo interino dominado pelos xiitas, cheia de prisioneiros sunitas submetidos à tortura. O episódio, além de acarretar a explosão de novos atentados em igrejas, casamentos e até cerimônias fúnebres erodiu a baixa confiança da comunidade muçulmana sunita nas declarações de boa intenção dos líderes xiitas, elevando a tensão no dilacerado país. O episódio cria um problema adicional para as autoridades norte-americanas, empenhadas em acelerar a transferência de controle das operações de segurança para o governo iraquiano até 2006 premidas por razões de política interna.
É que a opinião pública e o Congresso americanos estão impacientes com o impasse no Iraque, onde mais de 2 mil soldados ianques já morreram e foram despejados mais de 200 bilhões de dólares em despesas de uma guerra cada vez mais impopular. Se fosse viva, a historiadora Barbara Tuchman teria incluído o caso em seu livro sobre "A Marcha da Insensatez". A laureada escritora fechou seu ensaio clássico com a crise do Vietnã, onde os Estados Unidos enfrentaram situação semelhante à intervenção no Iraque há pouco mais de 30 anos. Uma geração depois, os arquivos do conflito vietnamita se repetem no caso iraquiano, com o governo de Washington crescentemente acossado pela percepção negativa da opinião pública sobre os custos da intervenção.
Dois anos após ocupado o Iraque e deposto o regime ditatorial de Saddam Hussein, os norte-americanos que questionam a iniciativa formam maioria, colocando o governo Bush numa defensiva que assusta os políticos do partido republicano. É que a forte reprovação popular interna contra a solução militar poderá se expressar nas urnas das eleições de 2006. Também, a esta altura fica claro que havia outras opções para pressionar o regime de Saddam, acusado de ameaçar a paz internacional com suas armas de destruição em massa.
O pano de fundo para a intervenção igual à operação contra o regime dos talebans no Afeganistão era a luta contra o terrorismo fundamentalista responsável pelos atentados de setembro de 2001 contra os Estados Unidos. O problema é que a destruição de Saddam e as dificuldades para restaurar um governo estável no Iraque ampliaram, em vez de conter, as ameaças desse inimigo sem rosto que preocupa a humanidade em nosso tempo. Essa é equação que o governo Bush precisa resolver antes das eleições de 2006 em seu país.



