Dos clássicos do faroeste aos mestres do jazz, da poesia de Walt Whitman aos romances de William Faukner, da espiritualidade contemplativa de Thomas Merton à mística da não-violência ativa e transformadora de Martin Luther King, os EUA têm muitas coisas boas para dizer e mostrar ao mundo. Na política, os EUA produziram alguns notáveis estadistas. Entre eles, na minha compreensão histórica, o maior foi Franklin Delano Roosevelt. Em respeito a George Washington, Thomas Jefferson, Abraham Lincoln, relativizemos: digamos que é um dos três ou quatro maiores na história daquele país. Prova disso é que, 60 anos depois de sua morte, continua contemporâneo. As políticas sociais do New Deal têm sido uma das fontes de inspiração e referência dos programas e obras do nosso ministério.
No fecho do livro "Roosevelt", de Lord Roy Jenkins, encontramos as seguintes palavras: "Os três grandes da Segunda Guerra Mundial figuram de forma bem diferente na história. O mundo em que vivemos hoje não é o mundo de Churchill, desfeito seu Império Britânico, e não é o de Stalin, com sua União Soviética nada mais que uma lembrança, sua tirania totalmente exposta e os partidos comunistas destronados, salvo em Cuba, ou imensamente reformados, como na China. O mundo em que vivemos ainda é o de Franklin Roosevelt (...). Sua história e ele próprio continuam sendo vitais para o futuro sombrio." Sem considerar aqui a dimensão da guerra e da sua refinada percepção do mundo do pós-guerra, considero que a permanência de Roosevelt decorre em primeiro lugar da sua sensibilidade em face do drama e do sofrimento dos pobres, conformando no seu país, através das políticas sociais do New Deal, o estado do bem-estar. A opção rooseveltiana era clara e forte: "A assistência ao desamparado está acima do orçamento equilibrado." Para ele um cidadão americano, vivendo a experiência-limite da fome ou do estado de necessidade, não era uma questão contábil ou orçamentária, mas dizia respeito à dignidade nacional. "Vejo um terço da nação mal vestida, mal alimentada, e morando mal. Não pinto essa imagem em desespero. Pinto com esperança, porque a nação, vendo e compreendendo a injustiça nela contida, se propõe a apagá-la". Como corolário dessa opção primeira pelos pobres, Roosevelt confrontou "as forças do egoísmo e da cobiça do poder", que nele, nas suas próprias palavras, "encontraram um adversário à altura". E completou: "Gostaria que se dissesse do meu segundo governo que, nele, estas forças encontraram quem as dominasse".
Assim, o segundo grande legado de Roosevelt foi subordinar os interesses particulares aos superiores interesses da pátria. Para que sejam preservados e ampliados os valores que coesionam a nacionalidade, é fundamental a presença e a força do Estado, na perspectiva do Estado Democrático de Direito. Roosevelt definitivamente não acreditava que as forças do mercado, sempre voltadas ao lucro, e às manifestações e organizações da sociedade por si só, pudessem equalizar as relações e conflitos e promover o desenvolvimento com justiça social.
Roosevelt, em virtude de suas convicções e práticas, foi um "sinal de contradição". "Poucos presidentes dos Estados Unidos suscitaram uma veneração contemporânea mais profunda e nenhum (...) provocou um ódio também mais profundo" (Dexter Perkins, A época de Roosevelt). Esse ódio vinha de interesses econômicos e financeiros poderosos, confrontados pelo vigor de suas ações governamentais em nome do Estado e do bem comum. Jenkins confirma, falando das eleições de 1936: "Foi a vitória mais arrasadora desde os primeiros dias da república, conquistada a despeito da esmagadora hostilidade da imprensa. Nos 46 estados em que venceu, Roosevelt teve muito pouco apoio dos jornais. Mais do que isso, foi a vitória obtida contra o desejo dos que se julgavam donos naturais da opinião pública americana. Alguns democratas, por exemplo, Al Smith, e pelo menos 80% da antiga classe alta, a mesma à qual pertencia Roosevelt, votaram firmemente contra ele (...) Foi a primeira eleição rigidamente de classes na história americana".
O farol rooseveltiano continua aceso: é necessário priorizar, proteger e promover os pobres e fortalecer o Estado, como instrumento civilizatório e catalisador das melhores energias coletivas. Fora dele é a fragmentação dos povos e das nacionalidades, o caminho aberto para a barbárie.



