É um paradoxo, mas quanto mais a crise política se aprofunda melhor para o país, pois, com o tempo e as novas revelações algumas coisas vão ficando claras: primeiro, está cada vez mais evidente que a crise não é de natureza partidária, restrita ao PT, cujos dirigentes não se mostraram moralmente à altura das responsabilidades que a gestão da coisa pública impõe.
Nem aos seus aliados, abrigados nesse bazar eleitoral que é a vida política brasileira, utilizando-se dela apenas como vetor para fazer negócios que não podem ser expostos à luz do dia. No momento em que políticos do PSDB, do PFL e do resto da oposição também receberam dinheiro do indefectível Marcos Valério, fica evidente que a corrupção é ecumênica, sistêmica, endêmica, que não poupou nenhum setor da vida pública, nem mesmo o Judiciário na medida em que já apareceram associações de magistrados como beneficiários de verbas repassadas pelo publicitário mineiro.
A grande contribuição do PT foi ter dado uma escala industrial ao tráfico de influências, à compra de simpatias, à distribuição de benesses e à coleta de dinheiros sujos. Outra grande contribuição à vida política nacional foi rasgar a fantasia da decência presumida, do partido dos Catões, do chicote que vergastava os maus e os impuros, da UDN de macacão, para mostrar sua face de agremiação humana, na qual coexistem pessoas com os melhores e mais nobres propósitos com indivíduos de projetos inconfessáveis, doidos por uma vantagem pessoal, um "mimo", um Land Roverzinho, uma mordomia sibarítica, um agradinho. Dizem os cínicos que o governo Collor desmoralizou as gravatas Hermés com a insistência do grupo alagoano que tomou de assalto (literalmente) o Estado em ostentar o símbolo da nova-afluência. O governo do PT, pelo jeito vai desmoralizar os charutos Cohiba e os Land Rover.
Temos de entender que se trata de uma crise do sistema político como um todo, do regime de representação democrática e do sistema de governo, para que tenhamos alguma chance de sair dela. A insistência em caracterizar a presente situação como apenas um deslize político-eleitoral nada mais é do que uma tentativa dos implicados em buscar um enquadramento penal mais favorável para o que fizeram e desvia o foco do problema. Chega a ser comovente a rapidez com que políticos de várias denominações e origens confessam o recebimento de dinheiro "não-contabilizado" (um eufemismo superatualizado) em suas campanhas passadas, como se estivessem prontos e ansiosos para levar um puxão de orelhas da Justiça Eleitoral já que a vida precisa continuar... Incidentalmente, não acredito que essa tentativa de levar a questão para a área de crime eleitoral tenha sido criada pelo ministro Márcio Thomas Bastos, como tem dito a imprensa, pois um homem de sua estatura profissional e republicana não iria comprometer sua biografia numa manobra chinfrim e oportunista como essa.
O problema central não é a ocorrência de crime eleitoral e sim a facilidade com que se montam esquemas político-empresariais para assaltar as repartições e as empresas estatais das mais diferentes e criativas maneiras possíveis; é a vulnerabilidade do patrimônio público a esse assédio no fornecimento de bens, na contratação de serviços, nas relações entre o sistema financeiro privado e público com os políticos e governantes. E, finalmente, o problema central é a aparente incapacidade das pessoas e instituições encarregadas do controle público de entender a tempo que alguma coisa não está certa no sistema. É claro que algo não está certo quando o Banco Popular do Brasil gasta mais em propaganda de seus serviços do que o volume de empréstimos que concede à sua clientela; que algo não cheira bem quando a Câmara Federal faz um contrato com uma agência de propaganda para divulgar seus feitos e méritos, pois a Câmara não necessita conquistar "clientes e consumidores". (Nesse caso da Câmara, a explicação não tardou, quando se descobriu que o ex-presidente da Casa que tomou a iniciativa de contratar a agência, era íntimo das mesmas manobras financeiras escusas. É claro que algo não está certo quando fundos de pensão de estatais, controlados de muito perto por pessoas íntimas do poder central, aplicam centenas de milhões de reais sem explicação convincente em dois bancos de porte médio, que agora estão em situação delicada com a própria divulgação do escândalo. Tomando carona no satirista Juvenal que perguntava quem fiscalizava os próprios fiscais, é de se perguntar aonde andavam eles. os fiscais e os fiscais dos fiscais que agora correm pressurosos para mostrar serviço.
Meu querido amigo portenho Enrique Busto, comentando a situação argentina. me disse certa vez que acreditava que só depois de chegar às profundezas do inferno é que seu país começaria a sair da crise em que vivia atolado há décadas. No nosso caso, é bom que cheguemos logo ao oitavo círculo do Inferno de Dante para acomodar lá os "conselheiros fraudulentos", os "semeadores de escândalos", os "falsificadores das palavras" e os "mentirosos". Como o personagem de Mark Twain, os protagonistas do nosso escândalo político têm demonstrado que gostam do céu por causa do clima, mas preferem o inferno por causa das companhias.



