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Opinião 1

O retrato do homem diante da morte

O clássico da literatura A Morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstói, é um daqueles livros que marcam para sempre o coração de quem lê. Não há possibilidade de manter-se indiferente ao sofrimento psicológico de Ivan Ilitch conforme ele vai se aproximando de sua morte. Poderia ser eu, poderia ser você.

À medida que se viram as páginas do livro é possível sentir a agonia de Ivan Ilitch a cada vez que ele vai tomando consciência da impossibilidade concreta de manter sua vida. Acometido por uma doença terminal que demorou a ser percebida, sinalizada por uma irritação e indisposição física que vinha sentindo há algum tempo, ele decide, por sugestão de sua mulher, procurar um médico. O diagnóstico é de uma doença grave que ataca os rins e o apêndice; ele ouve que o tratamento não era garantido, mas ele deveria lutar.

A vida ordenada e pacata de Ivan Ilitch como juiz em Petersburg, a relação com sua esposa e filhos de pouquíssima afetividade e intimidade, os encontros com os amigos para jogar cartas após o expediente e tudo o mais em que consistia a sua vida comum, aparentemente segura e dentro do esperado por seus conterrâneos, é colocado em xeque quando ele se depara com a morte.

Com a chegada da morte, uma luz é posta sobre toda sua vida, tornando completamente transparente aos seus olhos a vida ilusória que vivia. O professor e pesquisador José Monir Nasser, ao analisar o livro, retrata muito bem o que Ivan Ilitch sentiu ao dizer que "é só com a perspectiva da morte que acessamos a moral da vida".

Ivan Ilitch se dá conta de que a morte existe e que nunca havia pensado nela seriamente. Ele não queria morrer, muito menos naquela hora; julgava que tinha muito por fazer ainda e achava que era especial. Que a morte era para os outros, e que seu dia tardaria muito a chegar. Sua alma gemia de desespero e, quanto mais fundo mergulhava na verdade da morte, mais ele se espantava diante do real.

A Morte de Ivan Ilitch nos faz pensar em como nós, no Ocidente, encaramos a morte – ou melhor, em como procuramos não encará-la. Como nos protegemos dela. Nossa sociedade moderna, aliás, não trata assim apenas a morte, mas também a maior parte das questões fundamentais da vida.

Mas a vida, em contrapartida, é claríssima. Só não vê quem não quer. E ela decide se nos dá mais tempo. Somos os vivos da história nesse momento. O psicólogo existencialista Rollo May resume brilhantemente o que a vida quer a partir da notícia da morte: "Sei somente duas coisas: uma, que algum dia estarei morto; outra, que agora não estou. A única questão é: que vou fazer entre estas duas datas?" Ivan Ilitch, ao olhar para trás, encontrou muito pouco em sua vida. Para ele, a maior parte foi feita de ilusões – principalmente a ilusão de não saber quem era e o que tinha vindo fazer aqui.

Bianca Soprana, psicóloga, é consultora em desenvolvimento humano.

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