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Opinião do dia 1

Realidade brasileira

Mais um governo de nossa História Republicana ameaça não chegar ao fim, retalhando nossa frágil democracia, incapaz de conter o vendaval de ambições que atinge os homens em fúrias incontroláveis.

Vindo de uma euforia que ungiu o candidato Luiz Inácio Lula da Silva com uma apoteose de 53 milhões de votos, expressão de esperança que atingiu a alma de um povo crédulo e ingênuo, não precisou de 30 meses para se esboroar tal castelo de cartas, na mais grave crise a que, estarrecidos, assistimos.

Inédita, e sem precedentes na memória de nossa evolução política, singular e perversa, extermina com a autoridade de um presidente atônito e impotente a contemplar a agonia do seu poder, submerso em um mar de lama, pandemônio de confrontos irascíveis e imprevisíveis.

Outra não é a interpretação capaz de se extrair do que se empilha diariamente nos jornais, revistas, rádios e televisão numa troca de acusações e impropérios nos quais são acusados, culpados, e condenados as mais hierárquicas figuras da nação, transformadas, subitamente, numa súcia de velhacos.

Vamos por partes como faz o esquartejador de Dusseldorf.

Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, sábio, culto, presidente digno de um país de primeiro mundo, deixa o governo desgastado e impopular.

Lula, retirante do Nordeste, despreparado e humilde, aparece como o homem certo na hora certa, a desenvolver uma campanha em contraste com as pompas e circunstâncias do antecessor em queda. "Para ser bom governador não precisa ser doutor, melhor um homem do povo igual a nós, sofrido como nós, simples como nós, alguém que conhece as necessidades do pobre", eis a tônica que haveria de dar certo. Na exploração da tese, a estratégia das promessas mirabolantes, fome zero, emprego para todos, terra para todos, estradas, casas, saúde, educação, tudo para todos. A nação esplendeu em hosanas nas alturas, o redentor, triunfante antes mesmo da contagem final. Era a falência dos intelectuais.

O semideus iniciou e prosperou seu mandato com o prometido e não cumprido. O povo começou a cobrar e o presidente a empulhar com o primarismo de suas metáforas, "o apressado come cru, uma criança precisa de nove meses para nascer, o mundo não se fez num dia. Paciência, paciência, paciência."

Mais um pouco e a população descobre em sua personalidade um pecado capital, a preguiça. "Lula é preguiçoso". Não lhe atraem os encargos governamentais, reuniões com ministros, assessores, projetos, obras, reivindicações, salários, estradas, viadutos, nada de nada. O presidente foge de audiências, programas e metas. Foge para o exterior com predileção para os países do Terceiro Mundo, Guiné Bissau, Cabo Verde, Angola onde podia jactar-se do seu império na presunção de "líder dos emergentes." Também "ganha" tempo em visitas oficiais por suntuosos "sight-seings" da terra, a bordo de moderna aeronave adquirida ao preço módico de 56 milhões de dólares. Luiz Ignácio gosta das comemorações palacianas, dos amigos, das boas coisas da vida, da mesa farta, dos vinhos franceses, dos charutos de Havana, das festas de arraial, São Pedro, Santo Antonio e São João, onde pula fogueira e solta rojões. Portador de um biótipo agraciado com uma razoável quota de viscerotonia, a ela deve sua alegria, obesidade, e negligência.

Enquanto isso, José Dirceu navegava em águas de almirante, esbanjando autoridade, ditando regras, inventando medidas provisórias e, como dizem seus colegas, "metendo a mão no jarro", como se presidente fosse. A inveja, a competição, o confronto, "encheram o potássio" a ponto de levar o senador Roberto Jeferson, a "botar a boca no trombone", revelando o caos em que a nação se debatia, expondo a podridão das vísceras e os tumores no cerebelo.

A novela prosseguiu com uma série de CPIs, inquirindo as mais respeitosas autoridades nacionais todas elas envolvidas em um escabroso esquema de corrupção, afanos e roubalheiras, a gerar o maior cabedal de mentiras já engendrado sobre a face da terra.

Homens respeitáveis, dignos de nossas reverências e admirações, arautos da ética e do estoicismo, pregadores da austeridade e boas ações, mentiram e mentiram feio.

A população abandonou o Faustão, o Fantástico, a Diarista, o Casseta @ Planeta, em prol de suas excelências a se retalharem em polêmicas de alto e baixo calão.

Assim caminha por ora e por aqui a humanidade, numa bagunça federal que ninguém sabe como e quando vai acabar. A nação está há cem dias parada, na expectativa dos acontecimentos que, ao invés de se resolverem, mais se acumulam, recentemente enaltecido com o ingresso do ministro Palocci, trazendo novidades de Ribeirão Preto.

Quanto ao presidente Lula, noviço entre os devotos de Nossa Senhora Aparecida, a qual algo prometeu em troca de sua vitória, exibe-a ostensiva na lapela provando a nova aquisição. Promessa que, como de hábito, não deixará de esquecer. E para curtir o isolamento avança em sua campanha para as próximas eleições, com um comício em Quixadá, assim iniciado: ''Vocês precisa sabê que tô muito chateado com essa crise... e peço a vocês paciência, paciência, paciência, que até o fim do meu governo vou ser como Juscelino.'' Lula devia se poupar de discursos neste transe. Ninguém gosta de ter um presidente falando desse jeito. O que vão dizer os portugueses?

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