Ao bloquear a liberação de um empréstimo de R$ 350 milhões solicitado pelo governo estadual, o senador Roberto Requião prejudica todos os paranaenses com seu rancor contra adversários políticos
O senador Roberto Requião (PMDB-PR), ex-governador do estado, resolveu descontar em todos os paranaenses sua revolta contra o grupo político do governador Beto Richa (PSDB). Graças à sua intervenção, o Senado deixou de aprovar um empréstimo de US$ 350 milhões do Banco Mundial, cuja apreciação deve ficar apenas para 2013, atrasando investimentos nas áreas de educação, saúde, agricultura, meio ambiente e melhorias na gestão pública. Não é mera coincidência o fato de a vingança de Requião ocorrer imediatamente depois de sua derrota na convenção do PMDB paranaense, vencida pelo grupo do deputado federal Osmar Serraglio, mais próximo de Richa. Mas o rancor do senador prejudica todo o Paraná.
Também é sintomático que o empréstimo tenha sido aprovado pelo Ministério da Fazenda, pela Secretaria do Tesouro Nacional, pela Comissão de Financiamentos Externos do Ministério do Planejamento, pela presidente Dilma Rousseff e até mesmo pela ministra Gleisi Hoffmann com quem Richa acabou de ter um desentendimento por causa da redução da tarifa de energia elétrica. Mesmo adversários políticos do governo estadual não encontraram objeções ao empréstimo, por considerar que os investimentos feitos com os recursos beneficiarão a população; apenas Requião se opôs e isso após aprovar empréstimos semelhantes a outros estados , alegando querer mais detalhes sobre a destinação dos recursos, como se já não houvesse informações suficientes.
Requião se justifica afirmando que não queria "votar no escuro"; mas, então, teriam três ministérios, o Tesouro Nacional e a presidente da República dado seu aval "no escuro"? Ou o senador não confia na análise de todas essas instâncias, atropelando-as com um "poder de veto" no instante final? Requião certamente não estaria "no escuro" se tivesse participado de uma reunião em maio deste ano, na qual quatro secretários de Estado detalharam à bancada paranaense o plano de empréstimos pretendidos pelo Paraná. E, ainda que tivesse bons motivos para faltar, o senador teve tempo suficiente para se informar a respeito, como fizeram Alvaro Dias (PSDB) e Sérgio Souza (PMDB), que também não estiveram no encontro de maio: na época, eles disseram esperar mais detalhes; nesta semana, afirmaram que votariam a favor do empréstimo. Todo esse histórico dá ainda mais razão ao governador Beto Richa quando ele diz que o Paraná foi traído por Requião.
O endividamento, quando bem administrado, é uma ferramenta de desenvolvimento. Sabe disso qualquer pessoa que tenha feito um financiamento para adquirir sua moradia ou um veículo, ou qualquer comerciante que tenha buscado recursos para ampliar seu negócio. O mesmo vale para o poder público, como bem apontou na Gazeta do Povo de ontem o editor-executivo Guido Orgis, mestre em Economia Política Global pela Universidade de Kassel. O governo federal já havia aprovado um limite de R$ 3,5 bilhões para que o Paraná tomasse novos empréstimos, e o valor barrado por Requião na terça-feira equivale a cerca de 20% desse limite mesmo o pacote completo de empréstimos internacionais que vêm sendo negociados pelo governo estadual não passa de 40% do máximo que o estado pode tomar emprestado. De um ponto de vista puramente econômico, não há razões para suspeitar de que o Paraná esteja entrando em uma espiral de endividamento. Mas a vingança de Requião contra Richa assume proporções ainda mais sérias quando se sabe que o dinheiro iria para necessidades como a formação de profissionais da educação e programas de saúde. É aos que seriam beneficiados com essas iniciativas que o senador mais deve explicações.



