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Cardiologista Costantino Costantini
Cardiologista Costantino Costantini| Foto: Sergio Mendonça Jr. / Divulgação

A cloroquina deveria ser utilizada já de saída no tratamento de pacientes com sintomas típicos de Covid-19, mesmo antes da conclusão dos estudos sobre sua eficácia e seus efeitos colaterais. A opinião é do cardiologista argentino Costantino Costantini, radicado há mais de 40 anos no Brasil e diretor-geral do Hospital Cardiológico Costantini, em Curitiba, que tem acreditação máxima de qualidade pela Agência Nacional de Saúde (ANS). Em entrevista à Gazeta do Povo, Costantini minimizou o risco cardíaco do uso da droga em um tratamento de ataque ao vírus, por curto período de tempo. " Todo medicamento tem efeito colateral, mas quando é administrado por muito tempo, não por quatro ou cinco dias", sublinha.

Os efeitos colaterais da cloroquina em pacientes infectados pelo coronavírus são uma das preocupações da comunidade médica e científica. Pesquisas com a droga foram suspensas no Brasil e em outros países pelo agravamento do quadro de saúde e até morte de pacientes por complicações renais, hepáticas e cardiológicas. O Colégio Americano de Cardiologia publicou estudo que mostra o risco de arritmias cardíacas que podem ser fatais por conta da utilização da cloroquina. Outra discussão frequente é sobre o momento correto para a aplicação do medicamento em pacientes com Covid-19. Inicialmente autorizado para a utilização em pacientes graves, a cloroquina e sua variável menos tóxica, hidroxicloroquina, têm se mostrado mais promissora em estudos que a introduzem já nos primeiros dias de tratamento, logo após os primeiros sintomas da doença. É o que defende Costantini. Confira a entrevista.

Como o senhor tem visto as discussões acerca do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento dos pacientes com Covid-19?

A hidroxicloroquina é um medicamento que é amplamente conhecido no mundo, e aqui no Brasil especialmente, porque é usado contra malária. No Norte e Nordeste do Brasil é usado como primeira droga e de forma repetitiva. Muita gente já tomou quatro, cinco vezes, porque pegou malária várias vezes. Também é usado para artrites e, daí, por longo tempo. E também para o lúpus, uma doença mais complexa. Então, é um produto químico usado no mundo todo e com amplo conhecimento para essas doenças. Surge, a partir de alguns estudos, sobretudo um estudo francês, a utilização para uma pandemia como a que estamos vivendo. Os resultados são, inicialmente, promissores para combater o coronavírus nessa sua nova versão. O estudo começou com 36 pacientes, mas hoje já tem um número muito grande de pacientes, que ainda não foi publicado, com resultados muito animadores. A ponto de nosso presidente ter declarado que, se for necessário, ele colocava a farmácia do exército para produzir esse medicamento, porque sumiu da prateleira quando se noticiou a possibilidade do uso deste remédio para coronavírus. Algumas pessoas importantes no país já se manifestaram dizendo que pegaram coronavírus e tomaram hidroxicloroquina. Outras não fazem de forma mais incisiva porque faltam estudos internacionais. Mas, em uma pandemia como essa, eu não tenho nenhuma dúvida que isso precisa ser utilizado. É a alternativa que se tem.

Inicialmente, o medicamento foi autorizado para pacientes graves. Agora, já se faculta ao médico receitá-lo, em comum acordo com o paciente, no momento que achar adequado. Qual seria o momento adequado?

O vírus deve ser atacado assim que houver os primeiros sintomas. A droga não tem o mesmo efeito depois que se instalou a pneumonia. Uma vez que se instalou a pneumonia, que já há a associação de vírus com bactéria, evidentemente que a hidroxicloroquina não vai ter o efeito, porque não é um antibiótico. A hidroxicloroquina, considero, na minha experiência de cardiologista, sem nenhum gabarito de infectologista, tem que ser usada imediatamente na suspeita de coronavírus. Se o indivíduo começa com uma tosse seca, algum transtorno do olfato ou do paladar, ou temperaturas altas que não são compatíveis com gripe, esse é o momento que a hidroxicloroquina terá o melhor efeito. Meu posicionamento e de meus colegas do corpo clínico é: sintomas de gripe atípicos, nas primeiras 24 horas, hidoxicloroquina junto com o antibiótico azitromicina e, se tiver disponível, pastilhas de sulfato de zinco.

Mas e os efeitos colaterais? Uma das principais ressalvas ao uso desta droga é quanto aos riscos de complicações renais, oftalmológicas e, inclusive cardiológicas...

Lógico. Você não tem medo de tomar aspirina? Leia a bula da aspirina. Todo medicamento tem efeito colateral, mas quando é administrado por muito tempo, não por quatro ou cinco dias. O efeito colateral que possa ter a hidroxicloroquina, em nível cardíaco, em quatro ou cinco dias de uso, é controlável. É muito difícil que aconteça alteração no ritmo cardíaco. Tem medicamentos que utilizamos, como antiarrítmicos, no dia a dia do cardiologista, que também tem efeitos colaterais gravíssimos, em nível de olho, de pulmão e, sem embargo, a gente utiliza, com controle a cada seis meses da parte pulmonar e do fundo de olho. Os efeitos colaterais que se falam da hidroxicloroquina, no aspecto oftalmológico e renal são para quando se usa em doses prolongadas, não por quatro ou cindo dias. Essa é a opinião de um cardiologista: podemos dar a hidroxicloroquina por quatro ou cinco dias sem se preocupar com alguma efeito tão deletério como deixar de dar esse remédio ante um vírus tão maligno e que ninguém conhece. Quanto mais demorarmos a vinculizar o pensamento de cada um de nós, vamos ficar em cima do muro esperando um trabalho de fora para nos dizer, no futuro, que o remédio era bom. Por quatro ou cinco dias, se eu me equivoco dando hidroxicloroquina, o dano que eu posso produzir a esse paciente é quase nulo, comparado à possibilidade de que ele não se favoreça do efeito da hidroxicloroquina com esse vírus.

Então, por estarmos em uma pandemia, vale a pena “pular etapas” do processo científico e já introduzir o medicamento oficialmente nos protocolos de tratamento?

Vai esperar? Porque o David Uip, um destacado infectologista do país, não negou que tomou hidroxicloroquina? E o Dr. Kalil (Roberto Kalil Filho – diretor do Hospital Sírio-Libanês), admitiu que tomou, e hoje está trabalhando? E tomaram quando? Nos primeiros sintomas. Se você esperar 48 horas de febre para dar hidroxicloroquina, você estará dando tardiamente, e perde a possibilidade de ação para esse medicamento, que não vai fazer tanto efeito colateral por quatro ou cinco dias e que, aparentemente, vem com muita força científica, mas vai demorar. Eu tenho CRM, eu me responsabilizo. Se, aqui no meu hospital, uma pessoa do meu quadro profissional me aparece com gripe e com temperatura alta nas primeiras horas, não tenho nenhuma dúvida em receitar hidroxicloroquina, azitromicina e sulfato de zinco, mais hidratação e todas as outras medidas para gripe.

Conteúdo editado por:Marcos Tosi
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