Publicidade
"Pãozinho"

Déficit de trigo ameaça setor de alimentos e preços no Paraná

cotação do dólar trigo
Setor busca soluções para conter os impactos nos preços dos produtos ao consumidor. (Foto: Jonathan Campos/Arquivo/Gazeta do Povo)

Ouça este conteúdo

O Paraná caminha para colher, na safra 2026/27, quase 1,6 milhão de toneladas de trigo a menos do que precisa para abastecer seus próprios moinhos. A produção estadual é estimada em 2,2 milhões de toneladas, enquanto a indústria moageira consome cerca de 3,85 milhões de toneladas por ano.

O problema não é isolado: a safra brasileira, inicialmente projetada em 7,2 milhões de toneladas, foi revisada para 5,9 milhões, e o país pode precisar importar quase nove milhões de toneladas para garantir o abastecimento.

Isso não significa que faltará trigo nas prateleiras ou pão nas padarias. O mercado encontra alternativas no exterior para repor a oferta. O problema é que o Brasil fica cada vez mais dependente das importações para garantir uma matéria-prima essencial à alimentação, justamente em um momento de incertezas climáticas, geopolíticas e de aumento dos custos de produção e transporte.

Na prática, o trigo tende a chegar mais caro ao país, pressionando uma cadeia que vai muito além da farinha.

Paraná produz menos trigo do que seus moinhos precisam

O cenário chama atenção especialmente no Paraná, que abriga o maior parque moageiro do país e responde por cerca de 30% da produção nacional de farinha. Para abastecer suas indústrias, porém, o estado precisará buscar trigo em outras regiões brasileiras e, principalmente, no mercado internacional.

A produção prevista para este ano representa uma queda de aproximadamente 600 mil toneladas em relação às 2,8 milhões de toneladas colhidas na safra anterior.

A redução da oferta paranaense ocorre ao mesmo tempo em que o produtor vem diminuindo a área dedicada à cultura. Neste ciclo, foram plantados cerca de 740 mil hectares, contra 855 mil hectares no ano passado, uma retração de 13,5%.

Segundo Paloma Venturelli, presidente do Sindicato da Indústria do Trigo do Paraná (Sinditrigo-PR), a redução da área é resultado de um processo que se acumula há anos.

“Embora tenha havido crescimento no Centro-Oeste e em outras regiões, ainda é pequeno. Quando analisamos Paraná e Rio Grande do Sul, vemos áreas que tiveram perda muito significativa de área plantada. Além disso, tivemos safras frustradas”, explica.

Por que o produtor está plantando menos trigo?

Para Paloma, o problema está diretamente relacionado à rentabilidade da cultura. O produtor enfrenta custos elevados com fertilizantes, sementes, combustível e defensivos, além dos riscos climáticos e fitossanitários. Com uma remuneração considerada pouco atrativa, o trigo perde espaço para outras culturas.

O produtor rural Carlos Spolador, de Sertanópolis, no norte do Paraná, conhece essa equação na prática. Na propriedade, o milho safrinha ocupa a maior parte da área. O trigo entra principalmente nas áreas e períodos em que o plantio do milho é menos indicado.

Neste ano, ele plantou cerca de 90 alqueires de trigo, com custo aproximado de R$ 6 mil por alqueire. No milho, são quase 600 alqueires, com custo que chega a R$ 8 mil e pode se aproximar de R$ 10 mil por alqueire. A diferença está também na perspectiva de retorno. “Neste ano o lucro [do trigo] vai ser pouco. Se sobrar 10% em cima de tudo, vai ser muito”, afirma.

Além do custo, há o risco de perdas na lavoura. Na região de Sertanópolis, mais quente e úmida, a ocorrência de doenças como a brusone pode comprometer a produção. Mesmo com a aplicação de fungicidas, as chuvas dificultam o controle.

“Se atacar no estágio inicial do cacho, pode perder-se toda a lavoura”, explica o produtor, que mantém uma área experimental com 13 variedades de trigo para avaliar quais apresentam maior resistência às doenças e melhor adaptação às condições locais.

Brasil ficará ainda mais dependente do trigo importado

Para Paloma, esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que o país está perdendo capacidade de produzir internamente uma cultura considerada estratégica. O Brasil, historicamente dependente do mercado internacional de trigo, agora enfrenta uma combinação de redução da produção doméstica e dificuldades também no exterior.

“Não é que vai faltar trigo. Existe bastante trigo no mundo. O que nos preocupa são as questões internacionais”, afirma.

A Argentina continua sendo a principal alternativa para abastecer o mercado brasileiro, especialmente pela proximidade e pelas facilidades comerciais do Mercosul. Porém, o trigo argentino disponível nesta temporada apresenta problemas de qualidade, com menor teor de proteína e glúten úmido. Isso pode limitar seu uso em determinadas aplicações e obrigar os moinhos a buscar produtos de outras origens.

Quando isso acontece, a conta aumenta. Segundo dados apresentados pelo setor, o trigo dos Estados Unidos chega a custar cerca de R$ 300 a mais por tonelada em comparação ao argentino. O mercado americano também enfrenta uma redução de produção e de disponibilidade para exportação.

O Paraguai, outro fornecedor tradicional do Paraná, também deve ter menor volume disponível para exportação, enquanto os conflitos entre Rússia e Ucrânia acrescentam incertezas aos custos de frete e seguro no transporte marítimo.

Há ainda o componente climático. A possibilidade de um El Niño de maior intensidade acrescenta mais uma variável a uma equação que já reúne custos de produção elevados, redução da área plantada, menor produtividade, problemas de qualidade e instabilidade no mercado internacional.

No Brasil, a projeção de produção já caiu de 7,2 milhões para 5,9 milhões de toneladas. Com o consumo interno superior à capacidade de produção, a estimativa é de que o país precise importar quase nove milhões de toneladas, volume que pode representar um recorde histórico.

Déficit de trigo pode encarecer o pão?

É justamente aí que o problema deixa de ser apenas do produtor rural ou da indústria moageira e chega à mesa do consumidor. O trigo é matéria-prima de uma cadeia que inclui pães, massas, pizzas, biscoitos, produtos frescos e diversos outros alimentos.

A presidente do Sinditrigo ressalta, porém, que não é possível estabelecer uma relação direta entre o déficit de trigo e um eventual aumento proporcional no preço do pão. A farinha representa apenas uma parcela do custo final do produto, e outros fatores também influenciam o preço ao consumidor. Mas a pressão existe. “Vai chegar mais caro”, resume Paloma.

O aumento dos custos de importação pode atingir moinhos e empresas que utilizam farinha de trigo como matéria-prima. Dependendo da evolução dos preços, parte desse impacto pode chegar aos produtos vendidos ao consumidor.

Setor busca alternativas para recuperar a produção

O desafio, portanto, não está na possibilidade de o Brasil simplesmente ficar sem trigo. O mercado internacional tem capacidade de fornecer o produto. A questão é quanto custará garantir esse abastecimento e até que ponto o país pode depender de fornecedores externos para uma matéria-prima essencial da alimentação.

Para o setor, a resposta passa por tornar novamente atrativo o cultivo nacional. Isso significa enfrentar o custo de produção, melhorar a rentabilidade do agricultor, ampliar o uso de tecnologia e reduzir os riscos envolvidos no plantio.

“Temos que provocar as cooperativas: como incentivar os agricultores a plantar trigo? É custo de produção e rentabilidade”, afirma Paloma.

Enquanto essa equação não for resolvida, o Brasil continuará recorrendo cada vez mais ao mercado externo para completar a produção nacional. E, em um cenário de guerras, mudanças climáticas e custos logísticos imprevisíveis, depender de fora para garantir o trigo que chega diariamente à mesa dos brasileiros se torna também uma questão de segurança alimentar.

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Tudo sobre:

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.