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Erguido sob a sombra da Segunda Guerra Mundial, o Edifício Marumby, no centro histórico de Curitiba (PR), foi inaugurado no pós-guerra, 1948. O primeiro arranha-céu residencial da capital paranaense incorporou no subsolo um abrigo antiaéreo. A decisão refletia o impacto recente das bombas atômicas que atingiram Hiroshima e Nagasaki e o temor de um novo conflito, então sob a ameaça nuclear.
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Na superfície, o prédio anunciava modernidade e progresso. Abaixo dela, guardava um refúgio pensado para sobreviver ao pior cenário possível. Essa dualidade ajuda a explicar por que o Marumby se tornou mais do que um marco arquitetônico.
A altura correspondente a 12 andares do edifício rompeu a paisagem horizontal da Praça Santos Andrade, como um manifesto de mudança: a modernidade ganhava espaço e um endereço no centro da capital paranaense. O arquiteto e urbanista Fábio Domingos Batista explica que é possível que o Marumby tenha sido inspirado por alguma publicação estrangeira.
"Dos edifícios que pesquisei, apenas no Marumby eu encontrei documentos que comprovem o abrigo antiaéreo. Acredito que o abrigo, devido a altura da edificação, foi uma exigência, ou um escolha do autor, mas acho que ele não tinha poder para tomar essa decisão, deve ter sido ou uma diretriz da prefeitura à época ou da construtora", cogita.
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Enquanto a cidade ainda se apegava a fachadas ornamentadas e construções de baixa estatura, o Marumby impunha linhas limpas. Do icônico portão de ferro amarelo com tramas geométricas às marquises que abraçam o entorno, cada detalhe revela marcas de art déco, movimento artístico arquitetônico.
O nome não foi casual. O edifício foi batizado em homenagem ao Marumbi, complexo de montanhas da Serra do Mar paranaense, considerado o berço do montanhismo no Brasil. A ideia era que o edifício nascia para ser o cume urbano da capital: assim como os picos se impõem na natureza, o prédio deveria dominar o horizonte de uma Curitiba que começava a se reinventar.
"Era o alto do paranismo, um movimento cultural e artístico do Paraná, focado em criar uma identidade regional forte, por isso foi uma homenagem ao complexo de montanhas paranaenses, explica o diretor de Patrimônio Histórico da Fundação Cultural de Curitiba, Marcelo Sutil.

O arquiteto responsável pelo prédio histórico com bunker em Curitiba
Idealizado em 1944 e erguido pela construtora Gutierrez, Paula & Munhoz, o projeto carrega a assinatura de Romeu Paulo da Costa. Formado na França, o arquiteto trouxe na bagagem a esquina suavemente arredondada — um traço cosmopolita raro para a província de então.
"Romeu Paulo da Costa projetou o atual prédio da Biblioteca Pública do Paraná, no centro de Curitiba. Foi um expoente do modernismo na arquitetura do Paraná, pioneiro na verticalização", afirma Sutil.
Presença marcante na esquina das ruas Conselheiro Laurindo e XV de Novembro, cada um dos 12 andares do Marumby possui quatro apartamentos, todos com pé direito alto, dois dormitórios e, em algumas unidades, varanda. Para os padrões dos anos 1940, morar no Marumby era habitar o futuro. Com apartamentos de 158 metros quadrados e ventilação natural privilegiada, o edifício oferecia avanços tecnológicos como fogão elétrico e aquecedor de água já instalados.
Edifício Marumby se transformou em camarote para a história de Curitiba
O prédio também trazia o início do conceito de uso misto. No térreo, a vocação comercial abrigou várias lojas. A primeira unidade das Livrarias Curitiba, empreendimento tradicional na capital, também nasceu ali, confirmando a ideia do arquiteto Romeu Paulo da Costa, de integrar o morar ao consumir.
Além disso, moradores contam que as janelas do Marumby tornaram-se camarotes privilegiados para a história política e cultural do Paraná. São quase oito décadas testemunhando protestos e desfiles diante do Teatro Guaíra e do prédio histórico da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

O prédio também ficou conhecido por um episódio cinematográfico, registrado com fotos que correram o mundo. Em 1952, o Marumby parou Curitiba. Um equilibrista do grupo alemão Zugspitz Artisten atravessou uma corda bamba esticada entre o topo do Marumby e o edifício vizinho. A imagem do artista suspenso sobre o abismo da Rua XV de Novembro permanece, em foto preto e branco, decorando o hall de entrada até hoje.








