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Arquitetura

O que os prédios de Curitiba contam pelas suas fachadas

Fachadas de edifícios históricos em Curitiba revelam diferentes fases da modernização urbana e da verticalização da cidade.
Fachadas de edifícios históricos em Curitiba revelam diferentes fases da modernização urbana e da verticalização da cidade. (Foto: André Nacli/Casa de Arquitetura de Curitiba)

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A Catedral Basílica de Curitiba, de 1893, ergue suas torres neogóticas a poucos metros do Edifício Garcez, arranha-céu modernista de 1927. Na mesma Praça Tiradentes, o Palácio Avenida, art déco de 1929, dialoga com o Teatro Guaíra, em estilo brutalista dos anos 1970. Em uma distância de menos de um quilômetro, séculos de arquitetura convivem no centro da capital paranaense.

Os edifícios históricos de Curitiba são um museu a céu aberto que contam uma narrativa arquitetônica escrita em tijolo, pedra e concreto. Ícones urbanos atravessaram gerações e se tornaram referências visuais.

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"Você pode ver a passagem do tempo pelos edifícios. A riqueza dos grandes centros urbanos está justamente nisso, a arquitetura dá o período de cada fase da história da cidade", explica o historiador e diretor de Patrimônio Histórico da Fundação Cultural de Curitiba, Marcelo Sutil.

Década de 1940 marca virada na paisagem urbana da capital

A verticalização da capital do Paraná teve início na década de 1940 e grandes edificações permanecem contando como era a vida e a visão de gerações de outras épocas. O arquiteto e urbanista Fábio Domingos Batista diz que as edificações revelam a identidade da sociedade que as produziu.

"Em Curitiba, a década de 1940 marcou uma virada decisiva na formação da paisagem urbana. A cidade iniciou um processo de modernização. A arquitetura passou a incorporar referências europeias. Foi uma fase mais cosmopolita. As edificações dialogavam diretamente com correntes arquitetônicas internacionais", afirma Batista.

Conhecido como “balança, mas não cai”, o Edifício Brasilino Moura ganhou o apelido pela inclinação das janelas e virou referência visual no centro de Curitiba.Conhecido como “balança, mas não cai”, o Edifício Brasilino Moura ganhou o apelido pela inclinação das janelas. (Foto: André Nacli/Casa de Arquitetura de Curitiba)

Edifícios em Curitiba revelam diferentes fases da modernidade urbana da capital

O historiador Marcelo Sutil explica que entre os prédios com construção na década de 1940, os edifícios Brasilino Moura e Santa Rosa representam esse momento de transição. Eles combinam a verticalização inédita da época com elementos mais simples e ainda com os da art déco, o estilo internacional que teve auge nas décadas de 1920 e 1930 e que foi símbolo de luxo e modernidade.

No Brasil, o estilo teve grande influência nos anos 1940, uma época que a capital paranaense buscava se alinhar aos grandes centros urbanos do mundo. "São edifícios referenciais para a paisagem de Curitiba das décadas de 1940 e 1950. É o período em que a cidade buscava uma arquitetura mais limpa, mais despida de adereços. É a chegada de um prenúncio do modernismo", aponta Sutil.

As duas edificações escondem em suas fachadas camadas distintas da história urbana, revelando como Curitiba mudou, cresceu e reinterpretou, ao longo do tempo, sua relação com modernidade, função e forma arquitetônica.

Pela inclinação das janelas, edifício ficou conhecido como “balança, mas não cai”

O Edifício Brasilino Moura integra o processo inicial de verticalização de Curitiba. Construído no mesmo período que a Biblioteca Pública do Paraná, o prédio se tornou um marco residencial e visual da região central. Obra da Construtora Gutierrez, Paula & Munhoz, foi inaugurado em 1944, na esquina das ruas Cândido Lopes e Ébano Pereira.

Para o arquiteto Fábio Domingos Batista, o Brasilino Moura simboliza inovação e modernidade na arquitetura de Curitiba. "A preferência dos construtores na época eram terrenos de esquina, pela facilidade de organização espacial da planta, por isso a fachada em duas ruas. O edifício foi um dos primeiros a utilizar esquadrias de ferro, o vitral, símbolo de modernidade do período", explica o arquiteto.

O historiador Marcelo Sutil evidencia que o edifício chama atenção pela solução arquitetônica adotada nas fachadas. “Era uma época em que a arquitetura ainda podia brincar com a inclinação das janelas. Isso deu origem até ao apelido popular de 'balança, mas não cai'”, explica.

Sutil destaca que, mesmo após décadas, o Brasilino Moura segue como referência urbana. “É um grande edifício residencial e, ainda hoje, um marco na paisagem. Quando se fala do Brasilino Moura, todo mundo sabe onde é. Ele funciona como ponto de referência daquele centro mais antigo da cidade”, afirma.

Para o historiador, o prédio também estabelece um diálogo arquitetônico relevante com seu entorno. “Ele faz um contraponto muito interessante com a arquitetura da Biblioteca Pública, ali na esquina”, observa.

Nesse contexto, o Brasilino Moura assume valor patrimonial. “É um edifício importante para preservação dentro do contexto da Curitiba moderna dos anos 1950”.

Edifício em Curitiba exibe o icônico "termômetro" de janelas

Idealizado pelo engenheiro civil Rivadávia Fonseca de Macedo, o Edifício Santa Rosa chamou atenção em sua inauguração porque oferecia sistema de encanamento com água aquecida, banheiras em louça, espaço para telefone e elevador. Conforto que colocou o prédio entre os endereços mais cobiçados do centro de Curitiba, no início da década de 1940.

Localizado na região da Praça Tiradentes, o Santa Rosa adota linhas mais retas e soluções formais típicas do período. "Diferentemente de outros prédios da praça no período, quando se preferia construções em esquinas, ele se posiciona no meio da quadra, reforçando essa leitura urbana", explica Sutil.

O “termômetro” de janelas do Edifício Santa Rosa virou símbolo da verticalização do centro de Curitiba.O “termômetro” de janelas do Edifício Santa Rosa virou símbolo da verticalização do centro de Curitiba. (Foto: Fernando Zequinão/Arquivo Gazeta do Povo)

Um dos elementos mais emblemáticos do edifício é o conjunto de janelas que se tornou símbolo do prédio. “É um marco na paisagem. Às vezes passa despercebido, mas é muito importante. Aquele famoso 'termômetro' de janelas é bem característico e ajuda a identificar o edifício”, aponta.

A lembrança de termômetro se dá pelo formato cilíndrico das janelas e o acender e apagar das luzes, que dá a impressão de aumento ou queda de temperatura.

O arquiteto Fábio Batista ressalta que o Santa Rosa uniu inovação construtiva e refinamento estético no centro de Curitiba. "Seu revestimento é em pó de pedra, comum a esse estilo arquitetônico na cidade naquela época, mas também um símbolo de modernismo".

Com oito pavimentos, o Santa Rosa era um dos prédios mais altos da capital paranaense quando foi inaugurado, em dezembro de 1940. "De acordo com relatos de sua família, o engenheiro teria criado a janela tubular de vidro inspirado em um termômetro de mercúrio", conta ele.

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