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Criado em 2023, o Programa Conectividade Rural surgiu para enfrentar uma das principais contradições do Paraná: embora 98% do território esteja em área rural, milhares de moradores viviam sem acesso à internet ou à telefonia móvel. A política pública passou a estruturar uma estratégia voltada a localidades onde o mercado não via viabilidade econômica para investir, conectando vilas, assentamentos e comunidades distantes dos centros urbanos.
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Segundo o diretor de Relações Institucionais da Secretaria de Inovação e Inteligência Artificial, Julio Cesar de Oliveira, o diagnóstico inicial revelou que a exclusão digital estava concentrada justamente nas áreas mais vulneráveis. “Quando iniciamos o projeto, apenas 51% da área rural tinha conectividade. Isso significava alunos sem acesso à internet, famílias sem conseguir ligar para a polícia ou para o Samu e produtores rurais sem condições de usar tecnologia”, aponta.
O programa estruturou um mapeamento georreferenciado das regiões sem cobertura e passou a cruzar dados de relevo, densidade populacional e indicadores socioeconômicos para definir prioridades. “A gente correlacionou conectividade com Índice de Desenvolvimento Humano e ficou evidente que os municípios com menor IDH eram os que tinham menos acesso”, diz Oliveira.
“A partir disso, usamos metodologia técnica para indicar onde a infraestrutura deveria chegar primeiro.” Uma das principais inovações do Programa Conectividade Rural foi criar um modelo de compensação tributária para atrair as operadoras.
Empresas passaram a trocar créditos de ICMS por investimentos diretos em torres de transmissão. “É um acerto de contas: a empresa transforma imposto em infraestrutura. Assim, comunidades que só seriam atendidas em 2029 ou 2030 passaram a receber sinal agora”, explica o diretor.
Até o fim de 2025, 359 torres haviam sido instaladas, dentro de um total contratado superior a 500 estruturas. A meta do governo estadual é conectar todas as localidades rurais do estado até o término deste ano de 2026.
Programa Conectividade Rural tem articulação entre secretarias
O secretário de Estado da Inovação e Inteligência Artificial, Alex Canziani, destaca que a execução do programa dependeu de um modelo integrado de gestão, que engloba as secretarias da Agricultura e do Abastecimento e da Fazenda, além da pasta que ele comanda, além de outros órgãos estaduais e grupos de representatividade no setor da área privada.
De acordo com Canziani, a Secretaria da Inovação atua como coordenadora técnica do projeto. “É nossa responsabilidade consolidar os indicadores, análises de cobertura geográfica, dados socioeconômicos e projeções de impacto para determinar prioridades de implantação”, diz. “Essa abordagem baseada em evidências garante que os investimentos não sejam arbitrários, mas orientados por critérios claros de necessidade e potencial de impacto.”
Segundo ele, levantamento do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) aponta impacto superior a R$ 2 bilhões no PIB estadual com a ampliação da conectividade em áreas rurais.

Na prática, a chegada da internet tem alterado a rotina de comunidades. Morador da zona rural da Lapa, na Região Metropolitana de Curitiba, Cleverson Luiz conta que, antes da instalação de uma torre próxima à casa em que mora, era preciso se deslocar para conseguir comunicação. “Hoje temos sinal de celular dentro de nossas casas, sendo que antes tínhamos que sair à procura de sinal e andar até dois quilômetros para melhorar a comunicação que depende da internet”, relata.
Segundo ele, os impactos vão além da comunicação. “Minha filha pode estudar e fazer pesquisas pela internet. Antes, a gente precisava ir até a cidade, que fica a 15 quilômetros, só para ela conseguir fazer um trabalho”, afirma. “Agora muita coisa não precisa mais se deslocar para resolver.”
Dzikovicz diz que a mudança foi sentida por toda a comunidade. “Não só eu e minha família, mas todo o pessoal daqui está aproveitando essa melhoria. Usar o aplicativo do banco, fazer pagamentos, falar com alguém: hoje você pega o sinal direto. Temos internet boa e sinal de celular, e isso foi muito bom para a comunidade em geral.”
Para Julio Cesar de Oliveira, o alcance do projeto vai além da instalação de torres. “Conectividade é como água e oxigênio. Uma criança da área rural não consegue competir com uma da área urbana sem internet. Cada torre que se ergue é cidadania”, afirma.
Segundo ele, a proposta do Programa Conectividade Rural é reduzir desigualdades históricas entre o campo e a cidade, ao garantir acesso a serviços básicos, educação e oportunidades produtivas.




