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Rua 24 Horas, símbolo urbano de Curitiba, atravessa décadas e busca novo protagonismo

Ícone urbano que atravessa gerações, a Rua 24 Horas busca novo protagonismo em meio à revitalização do Centro de Curitiba
Ícone urbano que atravessa gerações, a Rua 24 Horas busca novo protagonismo em meio à revitalização do centro da capital paranaense. (Foto: Isabella Mayer/Prefeitura de Curitiba)

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Poucos espaços urbanos sintetizam a identidade de Curitiba quanto a Rua 24 Horas. Localizado entre as avenidas Visconde de Nácar e Visconde do Rio Branco, no coração da capital paranaense, o projeto nasceu em 1991 como uma proposta ousada: ser um eixo comercial, cultural e de convivência aberto dia e noite. Mais de três décadas depois, mesmo sem manter o funcionamento ininterrupto, a Rua 24 Horas preserva seu papel como um dos endereços mais simbólicos da cidade, agora em um processo de reposicionamento que dialoga com as transformações do centro da capital.

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Idealizada pelo então prefeito Jaime Lerner, a criação da Rua 24 Horas marcou um período de intensa inovação urbana. “Virou um símbolo de vanguarda da cidade. Foi a primeira rua coberta 24 horas da América do Sul”, relembra Luiz Breda, empresário e presidente da Comissão de Eventos e Marketing da Rua 24 Horas, a Cate.

Segundo ele, a perda gradual do modelo original não se explica por um único fator. “Curitiba se descentralizou, os bairros se fortaleceram, a Região Metropolitana cresceu e o centro deixou de concentrar a vida urbana como acontecia nos anos 1990 e início dos anos 2000”. A mudança de dinâmica não apagou, no entanto, a força simbólica da Rua 24 Horas, que permanece como cartão-postal, ponto de encontro e referência turística.

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Como a Rua 24 Horas funciona hoje

A Rua 24 Horas opera em horário comercial e concentra principalmente serviços, gastronomia e comércio voltados ao público visitante e aos trabalhadores da região central. O perfil do público mudou, e o turismo passou a exercer papel determinante na vitalidade do espaço.

A transferência do ponto inicial da "Linha Turismo" do transporte coletivo para a Rua 24 Horas é considerado um divisor de águas. “Foi um pedido da associação de lojistas e isso irrigou a Rua 24 Horas e toda a região”, explica Breda. Com mais de 20 hotéis no entorno imediato, a circulação de turistas tornou-se parte fundamental da rotina do local.

Dados do Instituto Municipal de Turismo reforçam essa relevância. Pesquisa de demanda turística realizada em 2024 posiciona a Rua 24 Horas como o 14º atrativo mais visitado de Curitiba, entre os 15 principais pontos turísticos da cidade.

Para o presidente do instituto, Rodrigo Swinka, o espaço segue integrado de forma natural aos roteiros de quem visita a capital. “A Rua 24 Horas tem importância estratégica pela localização central, pela oferta de alimentação, serviços e conveniência. Ela aparece como parada recorrente para café, refeição ou fotografia.”

Embora o movimento ainda não tenha retomado o patamar anterior à pandemia de Covid-19, a recuperação é visível. “Este é o melhor momento desde 2020. Ainda não atingimos o fluxo de 2019, mas isso deve ocorrer nos próximos anos, com novos empreendimentos no entorno e com o fortalecimento das ações de revitalização do Centro”, projeta Breda.

Desafios urbanos e o futuro da Rua 24 Horas de Curitiba

A retomada passa, sobretudo, por uma programação intensa de eventos e ações culturais. Encontros mensais de brechós, festivais gastronômicos, transmissões esportivas, programação natalina e atividades integradas a grandes eventos da cidade vêm mudando a percepção do espaço.

“Essas ações fazem com que moradores e turistas voltem a ocupar a rua. A imagem muda completamente quando a Rua 24 Horas está cheia de pessoas”, observa o presidente da Cate.

Apesar dos avanços, os desafios urbanos seguem no centro do debate. Segurança, iluminação, infraestrutura e a redução do esvaziamento noturno do Centro são apontados como fatores decisivos para a consolidação dessa nova fase.

Para enfrentar essas questões, comerciantes e empresários estão estruturando a associação "Curitiba Downtown", que pretende apresentar ao poder público um conjunto de propostas integradas para a região que vai da Praça Osório até o início do bairro Batel. Na avaliação do arquiteto e urbanista Ricardo Amaral, espaços simbólicos como a Rua 24 Horas exercem função estratégica na regeneração urbana contemporânea.

“Eles induzem fluxos, reforçam identidades e reativam economias locais, mas isso só acontece quando há investimento contínuo em requalificação, adaptação aos novos padrões de mobilidade e atualização das formas de uso”, explica. Para ele, a Rua 24 Horas precisa ser entendida como um nó de articulação do centro da capital, conectando percursos, experiências e públicos distintos.

“Sem integração com o entorno, sem âncoras fortes de atração e sem políticas consistentes de ocupação, esses espaços tendem a se tornar residuais”, opina. A arquiteta e pesquisadora Andressa Muñoz Slompo complementa que a vitalidade urbana depende de diversidade e apropriação cotidiana.

Entre turistas, moradores e trabalhadores, a Rua 24 Horas reafirma seu papel como ponto de encontro e porta de entrada para o Centro de Curitiba.Entre turistas, moradores e trabalhadores, a Rua 24 Horas reafirma seu papel como ponto de encontro e porta de entrada para o Centro de Curitiba. (Foto: Isabella Mayer/Prefeitura de Curitiba)

“A cidade é um organismo vivo. Quando um espaço simbólico não acompanha essas mudanças, perde força. A Rua 24 Horas precisa combinar gastronomia, cultura, serviços, economia criativa, turismo e programação permanente. Só assim deixa de ser apenas um ponto turístico e volta a ser um espaço de convivência da população”, afirma a arquiteta e pesquisadora.

Slompo destaca ainda que políticas de segurança, mobilidade e iluminação são tão importantes quanto os eventos e o comércio para atrair e consolidar a permanência das pessoas. A retomada integral do conceito de funcionamento 24 horas é vista como inviável no cotidiano atual, mas experiências pontuais com esse perfil estão no radar.

“Manter tudo aberto 24 horas não é uma realidade hoje, mas eventos 24 horas, sim. Queremos testar isso”, diz Breda. Ao projetar os próximos cinco anos, ele imagina a Rua 24 Horas consolidada como um hub de cultura, turismo e identidade curitibana. “Um espaço que combine tradição e inovação, liderando a revitalização do Centro e ajudando a transformar essa região em um dos melhores centros urbanos do Brasil.”

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