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Alternativa logística

Transporte aéreo de cargas avança no Brasil e projeta crescimento acima da média global

Aeroporto Internacional Afonso Pena
Com expectativa de crescimento acima da média global, o modal aéreo ganha peso na estratégia logística de indústrias brasileiras. (Foto: Albari Rosa/Arquivo Gazeta do Povo)

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Em um cenário global marcado por tensões geopolíticas, gargalos logísticos e cadeias produtivas pressionadas por velocidade, o transporte aéreo de cargas deixou de ser alternativa emergencial para se consolidar como estratégia. No Brasil, a expectativa é que o modal cresça acima da média mundial em 2026, impulsionado por setores de alto valor agregado, como farmacêutico, tecnologia e comércio eletrônico.

A projeção global gira em torno de 4% de crescimento em volume no próximo ano, conforme a a Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata). No mercado brasileiro, a estimativa é mais otimista e pode alcançar cerca de 6%, refletindo o tamanho do mercado consumidor, a expansão do e-commerce internacional e novos investimentos industriais, como data centers no Nordeste, que demandam equipamentos sensíveis e de alto valor, tradicionalmente transportados por via aérea.

O cálculo é do diretor do Departamento de Transporte Aéreo da Allog, René Genofre. De acordo com ele, o principal traço do setor é a imprevisibilidade. Conflitos internacionais, fechamento de espaços aéreos e oscilações no preço do petróleo afetam diretamente rotas, disponibilidade e custos.

“Quando há desvio, perde-se capacidade ou aumenta-se o tempo de trânsito. Se o combustível sobe, o frete reage imediatamente”, afirma. Ele pontua que é praticamente impossível se blindar totalmente de eventos geopolíticos e climáticos.

A saída está em planejamento e diversificação de estratégias. Fretamentos conjuntos entre empresas, construção de rotas alternativas e uso parcial do aéreo como complemento ao marítimo podem evitar paralisações industriais.

“Migrar uma pequena parte da carga para o aéreo funciona como um pulmão para evitar parada de linha”, resume. Na prática, isso significa rever políticas internas de logística e deixar de tratar o aéreo apenas como última alternativa. Empresas consideradas mais maduras já incorporam o modal à estratégia, especialmente em momentos de maior risco, quando uma interrupção na cadeia pode gerar perdas superiores ao custo adicional do frete.

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Nesse ambiente de incertezas, alguns segmentos acabam se beneficiando da agilidade que o modal oferece. O segmento farmacêutico desponta como um dos principais vetores de crescimento. Medicamentos de alto valor agregado, produtos com controle rigoroso de temperatura e itens com prazo de validade curto tendem a voar. É o caso das chamadas canetas emagrecedoras e da toxina botulínica, que exigem rapidez e logística especializada.

Esse tipo de carga combina baixo peso e alto valor, favorecendo a precificação no modal aéreo, que considera não apenas o peso físico, mas o volume ocupado. Companhias oferecem soluções específicas para o transporte farmacêutico, com tarifas que podem ser até cinco vezes superiores às cargas convencionais. Ainda assim, o custo se dilui na margem do produto final, especialmente quando a rapidez de reposição impacta diretamente as vendas.

Genofre avalia que, em 2026, parte relevante da capacidade global pode ser absorvida por produtos farmacêuticos e biotecnológicos. A produção nacional de alguns insumos deve crescer, mas a importação de matéria-prima continuará dependendo do aéreo. “O fabricante quer produzir rápido e vender rápido. O frete vira investimento, porque acelera o ciclo e antecipa receita”, afirma.

O comércio eletrônico é outro impulsionador relevante. O Brasil soma cerca de 92 milhões de consumidores digitais, e grande parte das mercadorias internacionais chega por via aérea, especialmente itens de maior valor ou com promessa de entrega acelerada. Para Genofre, esse fluxo não deve diminuir. “Quase tudo que entra para abastecer o e-commerce cruza fronteiras voando. É uma tendência consolidada.”

Apesar do avanço das importações, a exportação aérea brasileira ainda é considerada tímida e concentrada em produtos de menor valor agregado. Frutas específicas, alguns alimentos perecíveis e nichos pontuais conseguem competitividade no modal, mas o país segue dependente de commodities que viajam por via marítima. Ampliar a pauta exportadora com produtos industrializados e tecnológicos é visto como caminho para equilibrar essa balança.

Especialistas defendem maior conectividade internacional para consolidar o Paraná como polo competitivo no transporte aéreo.Especialistas defendem maior conectividade internacional para consolidar o Paraná como polo competitivo no transporte aéreo. (Foto: Jonathan Campos/Governo do Paraná)

Paraná e o desafio da conectividade internacional

No estado do Paraná, o debate passa por infraestrutura e conectividade. O Aeroporto Internacional Afonso Pena é visto como peça estratégica para ampliar a competitividade do estado. Para Genofre, a ausência de uma terceira pista no aeroporto não é, isoladamente, o principal entrave.

“Há janelas operacionais disponíveis. O que falta são voos de passageiros”, avalia. A maior parte da carga aérea mundial viaja em aeronaves comerciais.

Dados consolidados após a pandemia de Covid-19 indicam que mais da metade do volume global é transportada no porão de aviões de passageiros. A ampliação de rotas internacionais diretas para Curitiba poderia reduzir o tempo de trânsito de cargas vindas da Europa, Ásia e Estados Unidos, além de diminuir a dependência de conexões rodoviárias com outros estados.

Na avaliação de especialistas, a presença de mais voos internacionais criaria um efeito multiplicador: maior oferta de espaço, redução de custos logísticos indiretos e aumento da atratividade para indústrias que dependem de agilidade. O desafio envolve demanda consistente de passageiros, articulação institucional e previsibilidade regulatória.

Além da infraestrutura física, a tecnologia aparece como diferencial competitivo. Plataformas de rastreabilidade, análise de dados e leitura preditiva de cenários ajudam empresas a reagir com mais rapidez a eventos climáticos e políticos.

Ainda assim, Genofre pondera que informação bem interpretada continua sendo decisiva. “Quem acompanha o noticiário, entende o cenário geopolítico e climático e age antes, consegue evitar prejuízos milionários. Às vezes, a decisão não é migrar tudo para o aéreo, mas uma parte estratégica. Isso pode ser a diferença entre manter a operação rodando ou parar uma linha inteira”, conclui.

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